Meta apresenta MetaRoCE, novo protocolo de transporte RDMA voltado para redes Ethernet em escala de IA

A Meta apresentou nesta semana o MetaRoCE, um protocolo de transporte RDMA —sigla para Acesso Direto Remoto à Memória, tecnologia que permite a transferência de dados entre a memória de diferentes servidores sem sobrecarregar o processador central— projetado do zero para cargas de trabalho de inteligência artificial operando sobre redes Ethernet convencionais. A iniciativa marca uma mudança de paradigma na forma como a empresa trata a infraestrutura de rede para treinamento e inferência de modelos de IA em larga escala.

MetaRoCE: A Aposta da Meta para Derrubar o Gargalo de Rede que Trava Clusters de IA com Milhares de GPUs - Imagem complementar

Treinar e servir modelos de fronteira já é tão um problema de rede quanto de capacidade de processamento. Operações coletivas como all-reduce e all-to-all, que sincronizam milhares de aceleradores durante o treinamento, são limitadas pela transferência mais lenta — e qualquer atrito na rede pode deixar capacidade de computação ociosa. O MetaRoCE surge como resposta direta a esse gargalo, especialmente em clusters que já chegam a centenas de milhares de GPUs distribuídos em múltiplos data centers.

PUBLICIDADE

O protocolo rompe com a premissa central do RoCE tradicional, que é o padrão consolidado para RDMA sobre Ethernet. Enquanto o RoCE convencional espera que a rede entregue cada quadro em ordem e depende de mecanismos como o PFC — controle de fluxo por prioridade que pausa o envio quando há congestionamento —, o novo protocolo trata a malha de rede como inerentemente sujeita a perdas e desloca a inteligência para a placa de rede (NIC). Decisões sobre ordenação de pacotes, seleção de caminho e recuperação de erros passam a ser gerenciadas na ponta, não nos switches.

Entre as decisões centrais de design, destaca-se a entrega fora de ordem como comportamento padrão. Os pacotes são distribuídos por múltiplos caminhos e chegam ao destino fora de ordem por construção, com cada pacote carregando seu próprio destino para ser escrito diretamente na memória final. Isso elimina a necessidade de buffers de reordenação e evita o bloqueio conhecido como head-of-line blocking, situação em que um pacote atrasado segura todos os seguintes.

O multipathing também é nativo no protocolo. Cada caminho utiliza uma porta de origem UDP distinta como entropia para o roteamento ECMP — método que distribui o tráfego entre múltiplos caminhos equivalentes —, permitindo que a NIC redistribua o tráfego sempre que identificar uma rota com problemas. A pilha de rede distribuída é programada em bibliotecas como DPDK, conjunto de ferramentas que acelera o processamento de pacotes em sistemas Linux comuns.

A tolerância a perdas substitui a busca por perfeição na entrega. Sem quadros de pausa, qualquer lacuna no vetor de confirmação seletiva de 256 bits é tratada como evidência de perda, e não de reordenação, disparando a retransmissão exatamente do pacote faltante, no caminho que o perdeu. O controle de congestionamento opera dos dois lados: do remetente, com base em marcações ECN — sinalizadores que indicam congestionamento sem descartar pacotes — usando algoritmo AIMD, que ajusta a taxa de envio de forma aditiva quando há espaço e multiplicativa quando não há; do receptor, com dicas de taxa justa compartilhada que permitem acelerar a convergência para a velocidade ideal. Incasts, situação em que muitos remetentes enviam dados a um único destinatário ao mesmo tempo, são resolvidos em um ou dois ciclos de ida e volta.

O protocolo exige dos switches apenas duas funcionalidades já amplamente disponíveis: marcação ECN e roteamento ECMP. Não requer recorte de pacotes, telemetria interna à rede, controle de fluxo por créditos ou distribuição no switch. Isso permite que o mesmo transporte opere sobre diferentes topologias, incluindo fabrics de nuvens de fornecedores cujo detalhamento de configuração o cliente não controla. A Meta também reduziu a explosão de estado de conexão ao separar ordenação e largura de banda: uma única conexão transporta múltiplos fluxos ordenados acima e múltiplos caminhos abaixo, sob um único controlador de congestionamento.

Nos testes realizados em um cluster com 64 nós equipados com GPUs AMD e placas de rede programáveis Pensando, comparando diretamente MetaRoCE com RoCEv2 em operações all-reduce e all-to-all, o novo protocolo entregou maior vazão e menor tempo de conclusão de fluxo. O resultado central de resiliência mostra que o MetaRoCE mantém cerca de 86% de vazão sob 1% de perda de pacotes e continua entregando largura de banda utilizável mesmo a 10% de perda, com degradação suave em vez de colapso. A validação em topologias multiplane com 4 e 8 planos e até 4 mil conexões simultâneas confirmou que a vazão escala linearmente com o número de planos.

A Meta pretende disponibilizar o MetaRoCE como especificação completa por meio do Open Compute Project, acompanhado de uma suíte de conformidade que permite a fornecedores validarem suas implementações e da biblioteca libsoftmetaroce, modelo comportamental usado como referência para desenvolvimento em silício. A entrega está prevista para o OCP Global Summit, em outubro de 2026. A implementação inicial foi comprovada em hardware da AMD Pensando, com outras implementações em andamento por parte de fornecedores adicionais. Por ora, a decisão envolve a arquitetura da malha de rede, não a aquisição imediata de equipamentos.