NASA acelera substituição do termo "inteligência artificial" por "superinteligência" após ordem de Trump
A NASA iniciou um esforço para substituir todas as referências à inteligência artificial (IA) pela expressão "superinteligência" em suas comunicações e sistemas digitais. A medida atende a uma ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que exige que órgãos federais adotem a nova nomenclatura sem reconhecer publicamente que o termo anterior foi abandonado. A tecnologia em si permanece a mesma, mas a adaptação cria desafios concretos para a comunicação científica e para a infraestrutura digital da agência espacial.
A ordem executiva, chamada "Inaugurating the Era of Super Intelligence" (ou "Inaugurando a era da superinteligência", em tradução livre), foi assinada em 29 de setembro e determina que as menções a "artificial intelligence" e "AI" sejam trocadas por "super intelligence" e "SI" nas comunicações oficiais do governo americano. A Casa Branca argumenta que a IA avançou para além da automação simples e da imitação da inteligência humana, o que exigiria uma terminologia capaz de refletir melhor as capacidades emergentes da tecnologia.
Há, porém, uma contradição apontada na própria determinação presidencial. Embora introduza um novo nome, a ordem mantém a definição federal existente de inteligência artificial, que abrange de maneira ampla sistemas computacionais capazes de aprender e produzir previsões, recomendações ou decisões. Na prática, tecnologias que já se enquadram nessa definição podem passar a ser chamadas de "superinteligência" sem precisar demonstrar qualquer capacidade adicional. Superinteligência, tradicionalmente, descreve capacidades muito mais avançadas, muitas vezes hipotéticas, que ultrapassariam os limites da cognição humana.
Um documento interno da NASA, obtido pelo Space.com, detalha um plano de implementação dividido em quatro fases, com mudanças previstas entre 9 de outubro e 23 de dezembro. O material foi distribuído pelo Escritório de Comunicações e pelo Escritório do Diretor de Informação da agência, determinando o uso imediato da nova terminologia em apresentações, exposições, materiais impressos, entrevistas à imprensa e outros conteúdos voltados ao público externo. Internamente, a orientação também alcança comunicações oficiais entre funcionários, guias de estilo, sites internos e sistemas de tecnologia da informação mencionados em materiais institucionais.
A regra é rígida quanto ao vocabulário antigo. A orientação proíbe reconhecer a nomenclatura anterior, inclusive por meio de expressões de transição como "SI, também conhecida anteriormente como IA". Termos relacionados também mudam: "IA generativa" deve ser substituída por "superinteligência generativa". Já expressões técnicas específicas, como machine learning (aprendizado de máquina), grandes modelos de linguagem e chatbots, continuam permitidas. As instruções valem para todos os centros e diretorias de missões da NASA, incluindo contratados e funcionários do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), na Califórnia.
A pressão vem do alto escalão. Desde que assumiu o cargo de administrador da agência, em dezembro de 2025, Jared Isaacman tem defendido a visão de Trump para a exploração espacial, com forte ênfase em missões tripuladas. Em 30 de agosto, o presidente telefonou inesperadamente durante uma entrevista coletiva sobre o lançamento do Telescópio Espacial Roman. Um mês depois, Isaacman participou de um almoço na Casa Branca com mais de uma dúzia de executivos do setor de IA, no mesmo dia da assinatura da ordem. Em coletiva no dia 1º de outubro, ele afirmou ter ficado honrado com o encontro e, embora se posicionasse como representante do setor espacial e não como especialista no tema, destacou o potencial da superinteligência para mudar o curso das civilizações.
Um funcionário da NASA ouvido pelo Space.com resumiu o clima interno: "Estamos recebendo muita pressão do próprio administrador para agir". O receio de confusão, no entanto, é compartilhado por quem executa a mudança. "Existe a preocupação de que haverá muita confusão na comunidade científica e na população em geral", afirmou um servidor familiarizado com o plano, sob condição de anonimato. Em gravações de uma reunião interna de comunicação obtidas pelo veículo, participantes manifestaram frustração com a proibição de explicar publicamente a mudança. Um deles comparou a situação a "Voldemort ou Macbeth", com pessoas chamando a IA de "a tecnologia que não deve ser nomeada". Outro reforçou que os conceitos não são equivalentes, já que superinteligência e inteligência artificial têm significados distintos. Um sistema anônimo de sugestões permite que funcionários encaminhem preocupações diretamente à direção da agência.
O cronograma se desenrola em quatro etapas. A primeira, iniciada em 9 de outubro, cobre os principais sites da NASA relacionados à IA e títulos de funcionários — Kevin Murphy, por exemplo, passou a ser identificado como chefe interino de dados e superinteligência. A segunda fase, com prazo original de 30 de outubro, foi antecipada para 16 de outubro e inclui páginas populares dos sites nasa.gov e science.nasa.gov, além do endereço do grupo de IA do JPL. Em 30 de novembro, entra a terceira etapa, que altera o endereço da plataforma Ask Sage, usada por órgãos federais; o documento alerta que essa mudança poderá interromper APIs — interfaces de programação que permitem a comunicação entre sistemas — e outras integrações, exigindo adaptações em conexões de software já existentes.
A última fase, prevista para 23 de dezembro, alcança sites com menor tráfego, sistemas internos e ferramentas da agência, incluindo páginas antigas ainda em uso, que receberão alterações ou avisos de caráter arquivístico. Títulos, descrições e metadados de vídeos e podcasts antigos poderão ser revisados, embora gravações, transcrições e legendas originais permaneçam inalteradas. Uma página sobre o planejamento de trajetos do rover Perseverance em Marte, por exemplo, já usa "SI" no título, mas mantém "AI" no endereço eletrônico, que depois será redirecionado. Segundo o documento interno, as datas não decorrem de prazo obrigatório da ordem executiva, mas de recomendações diante de prioridades concorrentes da agência e do Escritório de Gestão e Orçamento dos Estados Unidos.
A mudança de vocabulário ocorre justamente quando a NASA amplia o uso de IA em missões e pesquisas. Em dezembro de 2025, o Perseverance realizou seu primeiro deslocamento em Marte utilizando rotas planejadas com auxílio de IA generativa. A agência também emprega modelos como o Surya, desenvolvido em parceria com a IBM e treinado com nove anos de dados de heliofísica para aprimorar previsões sobre clima espacial e atividade solar. Mais recentemente, NASA e IBM apresentaram um modelo voltado ao estudo da superfície lunar em busca de possíveis depósitos de gelo de água, e essas tecnologias são consideradas estratégicas para processar o grande volume de dados do Telescópio Espacial Roman.
Tais modelos, conhecidos como modelos fundamentais, continuam enquadrados nas expressões técnicas permitidas, mas as diretrizes para publicações científicas e documentos de pesquisa ainda estão em elaboração. A indefinição levanta dúvidas sobre como pesquisadores da agência conciliarão a nova nomenclatura com a terminologia usada por universidades e instituições científicas internacionais que não seguirão a ordem americana. Em resposta ao Space.com, a NASA afirmou estar adotando uma abordagem coordenada para incorporar a determinação às comunicações e aos recursos digitais, preservando a funcionalidade e a acessibilidade dos sistemas, e garantiu que continuará comunicando suas pesquisas, descobertas e avanços tecnológicos com precisão e transparência.