O uso da Wikipédia está em declínio em um cenário dominado pelos resumos automáticos de inteligência artificial nas buscas, e a consequência pode ser bem mais profunda do que a simples queda de visitantes. Um trecho do livro do jornalista Richard Cooke, intitulado "The Last Best Place on the Internet: A Human History of Wikipedia", publicado pela revista Wired, argumenta que a perda verdadeira tem caráter existencial: ameaça a própria continuidade da última grande enciclopédia escrita por seres humanos.
As chamadas AI Overviews são resumos gerados por inteligência artificial que respondem às perguntas dos usuários diretamente no topo dos resultados de busca, dispensando o clique em sites externos. Com essa mudança no comportamento de quem busca informação, a Wikipédia deixa de receber parte dos leitores que a acessavam por meio das pesquisas. O problema, segundo Cooke, não se resume a métricas de audiência, mas ao destino de um projeto que representou a promessa de uma internet cívica e colaborativa.
O livro conta a história da enciclopédia a partir de sua criação e de sua trajetória até se tornar uma das invenções fundamentais do século XXI. A Wikipédia é hoje o maior repositório de conhecimento humano já construído, com edições em 343 idiomas e milhões de leitores diários. Todo esse acervo é produzido por voluntários não remunerados, em sua maioria amadores e, frequentemente, anônimos — o que torna o empreendimento, na avaliação do autor, o maior ato de criação cultural coletiva da história.
Apesar de sua relevância, a enciclopédia ocupa uma posição paradoxal na economia da informação. Ela figura entre os dez sites mais visitados da internet e é a única organização sem fins lucrativos nessa lista. Além disso, assistentes virtuais como Alexa e Siri dependem da Wikipédia para formular respostas e, segundo o texto, dependerão ainda mais dela no futuro. Em outras palavras, os sistemas automatizados que hoje reduzem o tráfego do site também se alimentam do conhecimento que ele produz.
Cooke dedica parte da obra aos debates internos que moldaram a comunidade de editores, especialmente a disputa entre dois grupos conhecidos como inclusionistas e delecionistas. Os primeiros defendiam a ampliação dos critérios para manter verbetes, enquanto os segundos pleiteavam rigor na seleção do que merece ser preservado. Essas discussões, por vezes acaloradas, revelam uma questão central do projeto: quem decide o que é digno de registro e de memória.
O autor também examina o papel da Wikipédia na consolidação dos fatos em um período marcado por dúvidas profundas sobre verdade e autoridade. Ao longo de seus 25 anos, a enciclopédia tornou-se parte do tecido da vida cotidiana, algo quase invisível na experiência de buscar informação, sem concorrentes evidentes à sua altura. Para Cooke, ela não foi apenas uma enciclopédia entre outras, mas a enciclopédia, uma obra de referência que encerrou a era das demais.
É justamente essa trajetória singular que sustenta o alerta do livro. Nas palavras do autor, a Wikipédia é também a última enciclopédia que os humanos escreverão, porque as circunstâncias que permitiram seu surgimento já se encerraram. Ele a descreve como uma refugiada da internet como ela deveria ter sido, em oposição à internet como ela de fato se tornou. Os perigos apontados incluem bots, a polarização política e, de forma destacada, a inteligência artificial.
O avanço da tecnologia generativa, portanto, aparece no texto não como mais um desafio operacional, mas como uma ameaça de outra ordem. Se os resumos automáticos substituem a visita ao verbete original, o ciclo que sustenta a enciclopédia — leitores que eventualmente se tornam editores — pode se romper. A imagem usada por Cooke para descrever um possível fim é sombria: impérios digitais, quando caem, deixam poucas ruínas.
A obra "The Last Best Place on the Internet: A Human History of Wikipedia", de Richard Cooke, é publicada em português não, mas em inglês, pelas editoras W. W. Norton, nos Estados Unidos, Granta Books, no Reino Unido, e Black Inc., na Austrália, com lançamento previsto para outubro de 2026. Mais informações sobre o livro estão disponíveis no site da editora Black Inc. e na página oficial do autor.
Em síntese, a matéria coloca em debate uma questão que vai além do tráfego de um site: a possibilidade de que a era das respostas prontas geradas por inteligência artificial comprometa a manutenção do maior esforço voluntário de organização do conhecimento humano já realizado. O que está em jogo, segundo o livro de Cooke, é se a Wikipédia continuará viva como projeto coletivo ou se se tornará apenas matéria-prima silenciosa para as máquinas.