Um levantamento do Instituto Brasileiro de Regulamentação da Inteligência Artificial, entidade privada que acompanha as redes sociais, identificou que 24% das contas ligadas a partidos e candidatos no país são, provavelmente, robôs digitais criados por inteligência artificial. Batizados de neurobots, esses perfis falsos simulam conversas humanas e atuam para convencer o eleitor a votar em alguém ou a rejeitar candidatos. O número expõe a dimensão de um problema que já faz parte da rotina do debate político brasileiro.

O trabalho, finalizado na primeira semana de setembro, foi conduzido pelo sociólogo e estrategista político Marcelo Senise, titular do instituto responsável pela pesquisa. Os especialistas analisaram mais de 33 mil contas associadas a campanhas eleitorais. Na avaliação de Senise, boa parte dos personagens que hoje aparecem ativos nos comentários dessas plataformas não são seres humanos.

Estudo aponta 24% de robôs de IA em contas políticas nas redes - Imagem complementar

O termo neurobot designa perfis digitais construídos por sistemas de inteligência artificial capazes de gerar tanto a identidade da conta quanto os diálogos que ela mantém. A tecnologia permite que essas personagens participem de conversas, respondam mensagens e sustentem interações prolongadas com usuários reais sem levantar suspeita imediata.

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"Muitas vezes o eleitor está trocando mensagens em redes sociais com um personagem fictício, criado por IA", afirma Senise. Segundo o estrategista, em períodos eleitorais os neurobots servem tanto para incentivar o voto em alguém quanto para desestimular o eleitor a votar.

O percentual de 24% de contas provavelmente falsas foi denominado pelos pesquisadores de índice de contaminação pela inteligência artificial. A medição contou com o apoio da plataforma Sentinela Eleitoral/Polijetro, tecnologia especializada em detectar robôs em redes sociais.

O grau de sofisticação dos enganos chama atenção. Senise relata que o eleitor costuma se deparar com a foto de uma mulher atraente que, na prática, não existe. Os perfis simulam interação humana e chegam a estabelecer relações de flerte e aproximação afetiva com usuários reais. Para o sociólogo, o objetivo é direto: "Eles manipulam a percepção".

A contaminação foi observada em todas as campanhas analisadas, ainda que em intensidades diferentes. O estudo mediu 34% de perfis provavelmente artificiais nas contas ligadas ao PL Nacional e 31% nas associadas ao PT Brasil, duas das principais legendas do país. As contas relacionadas ao senador Flávio Bolsonaro apresentaram índice de 29%, e as ligadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva registraram 22%.

Os demais números do levantamento mostram Romeu Zema, governador de Minas Gerais, com 21%, seguido pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com 18%. Renan Santos aparece com 16% e Augusto Cury, com 14%. A presença dos robôs não significa, porém, que os citados estejam financiando a produção de desinformação.

Senise faz questão de alertar justamente esse ponto: o neurobot pode ser criado por terceiros, sem qualquer relação oficial com a campanha beneficiada ou atacada. "São mensagens manipulativas, para votar a favor ou contra o candidato", explica o pesquisador.

A capacidade operacional dessas estruturas é um diferencial importante. "Trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana, se multiplicam", resume Senise. Ao contrário de equipes humanas de militância digital, os perfis artificiais não descansam e podem ser replicados continuamente nas plataformas.

Para os especialistas, o uso da inteligência artificial nas eleições se transformou em uma discussão urgente. O tema é objeto de regulamentação pelo Tribunal Superior Eleitoral, órgão responsável pela organização e pela fiscalização das eleições no Brasil. "A Justiça Eleitoral avançou corretamente na tentativa de reduzir a interferência algorítmica das plataformas e disciplinar sistemas de inteligência artificial", avalia o estudo.

O documento do instituto defende que a regulação caminhe junto com um esforço de distinção cada vez mais difícil: separar mobilização legítima de simulação artificial. Para os autores, quanto maior o peso da circulação de conteúdo realizada por pessoas, apoiadores, influenciadores e redes de terceiros, maior também a necessidade de diferenciar as duas frentes.

"O desafio não é impedir que cidadãos façam política. Ao contrário: é proteger precisamente o espaço da participação humana para que ele não seja progressivamente ocupado por infraestruturas capazes de parecer cidadãos", conclui o trabalho.

Para o eleitor, o levantamento deixa um alerta prático: a próxima discussão política travada nos comentários de uma rede social pode não ter uma pessoa do outro lado. A proporção encontrada na amostra, de aproximadamente um perfil suspeito a cada quatro contas, dimensiona o desafio regulatório enfrentado pela Justiça Eleitoral.

O problema, como o próprio estudo reconhece, não se resolve com o silenciamento da participação popular. A questão central é manter o espaço digital de debate acessível a cidadãos reais e, ao mesmo tempo, conter a ação coordenada de sistemas automatizados projetados para se passar por gente.