O Google informou que corrigiu 1.072 vulnerabilidades de segurança nas duas versões mais recentes do Chrome, lançadas em junho de 2026, graças ao uso de inteligência artificial no processo de auditoria de código. O volume supera as 1.036 correções aplicadas nas 23 versões anteriores do navegador, distribuídas ao longo de aproximadamente dois anos. Os dados fazem parte de um relatório técnico divulgado pela equipe de engenharia do Chrome.

A marca de navegador mais utilizada do mundo passou a integrar modelos de inteligência artificial em diversas etapas do desenvolvimento, desde a análise automática de código até a identificação de comportamentos inseguros e a priorização das correções mais urgentes. O modelo Gemini, família de modelos de linguagem desenvolvida pelo Google, tornou-se peça central nesse processo.

IA do Google corrige mais falhas no Chrome em um mês do que em dois anos - Imagem complementar

Doug Turner, diretor de engenharia do Chrome, afirmou que os grandes modelos de linguagem mudaram completamente a economia da segurança digital. Tarefas que antes dependiam exclusivamente da análise manual de especialistas agora podem ser executadas em escala por sistemas inteligentes, permitindo que milhares de linhas de código sejam examinadas em muito menos tempo.

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Os modelos de inteligência artificial utilizados pelo Google são treinados com vulnerabilidades históricas, alterações anteriores no código do Chromium — projeto de código aberto que serve de base para o Chrome — e informações sobre ataques já documentados. Esse treinamento permite que a IA reconheça padrões semelhantes em componentes antigos e até em partes do navegador que recebem poucas modificações dos desenvolvedores.

Apesar do papel central da automação, o Google esclarece que a inteligência artificial não trabalha de forma autônoma. As descobertas feitas pelos modelos passam por validação dos engenheiros antes de serem incorporadas ao navegador. Ainda assim, a empresa afirma que a produtividade da equipe aumentou de forma significativa desde a adoção dessas ferramentas.

Boa parte das falhas encontradas recentemente não foi reportada por pesquisadores externos. Em algumas versões recentes do Chrome, a maioria das vulnerabilidades foi identificada pelas próprias ferramentas internas do Google, o que reforça o avanço da automação na segurança digital e reduz a dependência de programas de recompensa por descoberta de falhas, conhecidos como bug bounty.

O crescimento expressivo na quantidade de vulnerabilidades identificadas trouxe um novo desafio: distribuir correções com maior rapidez. Para lidar com isso, o Google anunciou que desenvolve um sistema de atualizações dinâmicas, capaz de aplicar parte das correções sem exigir que o usuário reinicie o navegador.

A proposta é reduzir o tempo em que os computadores permanecem vulneráveis depois que uma falha é descoberta. Muitos ataques cibernéticos exploram justamente o intervalo entre a disponibilização da atualização e sua instalação pelos usuários. Esses ataques são conhecidos como N-day attacks, nos quais criminosos aproveitam o fato de que uma vulnerabilidade já foi divulgada, mas ainda não foi corrigida em milhões de dispositivos.

Em computadores com macOS, sistema operacional da Apple, parte desse sistema de atualização em segundo plano já começou a ser implementada quando o navegador permanece aberto sem janelas visíveis. A visão de longo prazo do Google é manter o Chrome permanentemente atualizado, realizando reinicializações automáticas apenas quando não interferirem na experiência do usuário.

O Google confirmou ainda que pretende reduzir o intervalo entre atualizações de segurança e estuda liberar correções até duas vezes por semana caso o volume de vulnerabilidades continue crescendo. Esse ritmo representaria uma mudança significativa em relação ao modelo atual de atualizações programadas.

A Microsoft também registrou um volume recorde de falhas corrigidas em seus produtos durante o Patch Tuesday, evento mensal de distribuição de atualizações de segurança da empresa. Parte desse crescimento foi atribuída ao uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial para localizar problemas de segurança, o que indica uma tendência que ultrapassa os limites do ecossistema do Google.

Especialistas avaliam que o aumento nas correções não significa necessariamente que os softwares estejam ficando menos seguros. Pelo contrário, a inteligência artificial está tornando a descoberta de vulnerabilidades muito mais eficiente, revelando problemas que antes permaneciam ocultos por anos no código de aplicações amplamente utilizadas.

A Apple, por outro lado, mantém um ritmo mais estável na divulgação de vulnerabilidades corrigidas. Até o momento, não há indícios de um crescimento semelhante ao observado em Google e Microsoft, o que pode refletir diferenças tanto na estratégia de desenvolvimento quanto nas ferramentas utilizadas para auditoria de código.

Por anos, especialistas em segurança cibernética alertaram que a inteligência artificial poderia facilitar a descoberta de vulnerabilidades por criminosos. O cenário atual demonstra que a mesma tecnologia também está sendo usada pelos desenvolvedores para fortalecer seus próprios sistemas, iniciando uma corrida entre quem protege e quem tenta explorar falhas.

Para os usuários, a recomendação principal permanece a mesma: manter o navegador sempre atualizado. Com a inteligência artificial acelerando tanto a descoberta quanto a possível exploração de falhas, instalar rapidamente as novas versões do Chrome torna-se ainda mais importante para reduzir riscos de ataques e proteger dados pessoais.