Imagens do espaço que viralizam na internet nem sempre são o que parecem, e a inteligência artificial está tornando essa fronteira ainda mais difícil de identificar. Na astronomia, área que historicamente depende do impacto visual de suas descobertas para conquistar o público, a popularização de geradores de imagem automatizados cria um novo problema: distinguir um registro científico legítimo de uma representação criada do zero, sem qualquer correspondência com dados reais.

A questão vai além da simples produção de fotografias falsas. Imagens astronômicas passam, por natureza, por diferentes etapas de processamento antes de serem divulgadas. Telescópios captam diferentes tipos de radiação eletromagnética além da luz visível, incluindo infravermelho, ultravioleta e raios X, que não podem ser percebidos a olho nu. Para transformar esses dados em imagens compreensíveis, cientistas atribuem cores artificiais a determinados comprimentos de onda e realizam ajustes de brilho e contraste. O resultado pode ter aparência muito diferente daquilo que seria visto diretamente, sem que isso signifique fraude. Existe uma diferença essencial entre processar dados obtidos por um instrumento e fabricar uma representação sem qualquer dado observacional correspondente.

Quando o Céu Vira Fantasia: Como a IA Tornou Impossível Confiar nas Imagens do Espaço - Imagem complementar

Casos concretos mostram como o problema se agravou nos últimos anos. Em 2022, o físico francês Étienne Klein publicou em redes sociais uma imagem que supostamente mostraria Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, registrada pelo Telescópio Espacial James Webb. Na verdade, a fotografia mostrava uma fatia de chouriço sobre um fundo preto. Klein admitiu posteriormente que se tratava de uma provocação sobre a facilidade com que informações são aceitas e compartilhadas na internet, mas a publicação chegou a ser interpretada como verdadeira por parte do público. O episódio revelou como uma imagem ganha credibilidade simplesmente por estar associada a um contexto científico.

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Com os atuais geradores de inteligência artificial, o problema ganhou escala diferente. Já é possível produzir representações altamente realistas de planetas, eclipses, galáxias e espaçonaves sem que exista qualquer registro correspondente. Em 2025, imagens falsas atribuídas à missão Artemis 2, da NASA, circularam nas redes sociais como se tivessem sido feitas durante a viagem dos astronautas ao redor da Lua. Verificações identificaram imagens artificiais e conteúdos apresentados fora de contexto, como uma suposta fotografia da Terra vista pela janela da espaçonave Orion, que apresentava características incompatíveis com o veículo da missão, e uma imagem do Orientale Basin lunar que não correspondia aos registros reais obtidos pela tripulação. O episódio chama atenção porque a desinformação não precisa inventar o acontecimento inteiro: a missão existiu e produziu fotografias reais, bastando associar uma imagem falsa a esse contexto para conferir credibilidade.

O tema foi debatido na edição de 11 de setembro do programa Olhar Espacial, que reuniu o astrônomo amador e astrofotógrafo Marcelo Domingues e o divulgador José Serrano Agustoni, conhecido como Zeca Astrônomo. Domingues lembrou que o combate à desinformação já fazia parte da rotina de divulgadores antes mesmo da popularização da inteligência artificial. O projeto Astronomia ao Vivo, criado no fim de 2012 para aproximar a astronomia do público pela internet, também atuou ao longo dos anos no esclarecimento de teorias conspiratórias e informações sem fundamento, como alegações de que as missões lunares teriam sido uma fraude, a ideia da Terra plana e a teoria da Terra oca. Segundo ele, esses conteúdos se espalhavam porque havia pouco contraponto qualificado disponível na rede.

Zeca Astrônomo, engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-engenheiro de petróleo, ampliou a discussão para além da astronomia. Para ele, a dificuldade maior não está apenas na capacidade técnica de criar imagens convincentes, mas na vantagem que conteúdos enganosos levam ao disputar a atenção do público com uma explicação científica. Uma informação falsa pode ser construída de forma fantasiosa e imediatamente atraente, enquanto a explicação correta muitas vezes exige conceitos prévios para ser compreendida. Por isso, desmentir uma imagem depois que ela viraliza pode não ser suficiente.

Pesquisas sobre comunicação visual da astronomia já analisavam esse terreno antes da inteligência artificial se popularizar. O projeto Aesthetics and Astronomy, ligado ao Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos, estudou como características estéticas das imagens influenciam a percepção do público. Com a chegada dos novos geradores, surge uma preocupação adicional: além de interpretar escolhas feitas por cientistas e observatórios, o público passou a precisar avaliar a própria origem do conteúdo que consome.

Nesse cenário, a procedência se torna tão importante quanto a aparência. Fotografias e dados divulgados por missões espaciais e observatórios costumam vir acompanhados de informações sobre a missão, o instrumento utilizado, a data, a autoria e o processamento realizado. A resposta para a desinformação não está em transformar o público em especialista na identificação de imagens geradas por inteligência artificial, mas em fortalecer a alfabetização científica e visual. Isso significa compreender que uma imagem pode ser processada sem ser falsa, que uma representação artística não equivale a um registro e que uma fotografia só funciona como evidência quando sua origem pode ser verificada. Em tempos de inteligência artificial, divulgar ciência também passou a significar ensinar o público a olhar para uma imagem e perguntar não apenas o que está vendo, mas de onde aquilo veio e quais dados sustentam o que está sendo mostrado.