A Geração Z nos Estados Unidos apresenta um comportamento paradoxal em relação à inteligência artificial, mantendo o uso frequente da tecnologia enquanto a percepção negativa sobre seus impactos aumenta. Um estudo conduzido pela Gallup em parceria com a Walton Family Foundation e a GSV Ventures aponta que, embora a adoção seja alta, o entusiasmo dos jovens tem declinado sistematicamente.
O levantamento revela a queda significativa na esperança dos usuários entre 14 e 29 anos. Enquanto no ano anterior 27% dos entrevistados demonstravam otimismo, esse índice caiu para 18% em 2026. Simultaneamente, um terço dos jovens relatou sentir raiva em relação ao avanço dessas ferramentas.
Mais da metade dos participantes da pesquisa utiliza a IA generativa, tecnologia capaz de criar novos conteúdos como textos e imagens, de maneira frequente. O uso é ainda mais intenso entre os indivíduos mais jovens, com menos de 20% do grupo afirmando que não utiliza esses recursos.
Os jovens utilizam assistentes baseados em modelos de linguagem, como o ChatGPT da OpenAI, para finalidades diversas. As aplicações variam desde a resolução de tarefas escolares e conselhos sobre interações sociais até a tomada de decisões complexas, como a escolha de instituições universitárias.
Apesar da utilidade prática, existe uma preocupação crescente com a erosão da criatividade e do pensamento crítico. Os usuários reconhecem que a IA aumenta a eficiência em atividades cotidianas, mas temem que a dependência dessas ferramentas prejudique a capacidade cognitiva individual.
O impacto no mercado de trabalho é um dos pontos de maior tensão para quem está iniciando a carreira profissional. Quase metade dos jovens já empregados acredita que os riscos da tecnologia superam as vantagens no ambiente de trabalho, um aumento de 11 pontos percentuais em comparação ao ano passado.
Entre os temores citados por jovens adultos estão a substituição de cargos iniciais por automação e a disseminação de desinformação. A substituição de interações humanas por interfaces sintéticas também é vista como um risco real para a saúde das relações interpessoais.
Alguns profissionais relatam que a IA economiza tempo em tarefas operacionais, mas evitam seu uso na vida privada para preservar habilidades sociais. Há um desejo manifesto de que certas competências e interações permaneçam exclusivamente humanas.
Mesmo diante do ceticismo, a percepção de necessidade técnica permanece forte. Quase metade dos estudantes do ensino médio demonstra consciência de que dominar essas ferramentas será crucial para a competitividade em suas futuras carreiras.
O cenário reflete a visão de jovens que, embora céticos, sentem-se compelidos a aprender a manipular a tecnologia para não ficarem obsoletos. A relação é pautada por uma necessidade pragmática, desprovida do otimismo tecnológico de períodos anteriores.
O pesquisador sênior de educação da Gallup, Zach Hrynowski, destaca que a Geração Z tornou-se progressivamente mais negativa. O ceticismo atual surge de uma base que já não era particularmente positiva no ano anterior, aprofundando a resistência mental.
Casos específicos, como o de estudantes universitários, ilustram a mudança de perspectiva. Alunos que eram otimistas durante o ensino médio agora expressam medo de que seus interesses profissionais sejam substituídos por algoritmos nos próximos anos.
O debate sobre a integração da IA no ambiente escolar continua intenso entre pais, professores e legisladores. A discussão central gira em torno do equilíbrio entre a produtividade oferecida pelos chatbots e a preservação da aprendizagem fundamental.
Por fim, a curiosidade ainda aparece como o sentimento predominante quando os jovens são questionados sobre suas emoções em relação à IA. Isso sugere que, apesar do medo e da raiva, ainda existe um interesse genuíno em entender a evolução da tecnologia.
Essa ambivalência define a relação da nova geração com a inteligência artificial. O domínio técnico torna-se uma estratégia de sobrevivência profissional, enquanto a desconfiança serve como mecanismo de defesa contra a automação da experiência humana.