Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia utilizaram modelos de inteligência artificial da OpenAI para analisar mais de 410 mil publicações no Reddit ao longo de seis anos. O trabalho teve como objetivo mapear menções às substâncias ativas semaglutida e tirzepatida, além dos nomes comerciais dos medicamentos que as contêm, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, na busca por possíveis efeitos colaterais relatados espontaneamente pelos próprios usuários da plataforma.

O estudo foi publicado na revista Nature Health e sugere que fóruns online podem funcionar como fonte complementar de sinais para investigações clínicas futuras. Os pesquisadores deixaram claro, entretanto, que a análise automatizada não substitui ensaios clínicos nem avaliações médicas formais, servindo apenas como uma camada adicional de informação.

Inteligência Artificial Revela Efeitos Colaterais Não Reconhecidos de Medicamentos em Fóruns Online - Imagem complementar

Entre os relatos que se destacaram como potencialmente não reconhecidos de forma aprofundada pela literatura médica, dois grupos principais chamaram a atenção. O primeiro envolve queixas relacionadas à saúde reprodutiva, incluindo irregularidades no ciclo menstrual. O segundo abrange problemas ligados à regulação da temperatura corporal, como calafrios e ondas de calor. Vale destacar que esses efeitos não estavam entre os mais frequentemente mencionados nas publicações analisadas, mas apareceram com consistência suficiente para despertar o interesse da equipe.

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Para as alterações de temperatura, existe um mecanismo fisiológico conhecido. A forma como o metabolismo processa e queima energia é reconhecida por impactar o equilíbrio térmico do organismo. Já para as alterações menstruais, há menos pesquisa disponível sobre como esses medicamentos especificamente podem afetar o ciclo reprodutivo, tornando os achados merecedores de investigação mais aprofundada.

A psicóloga Jena Shaw Tronieri, uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, explicou que esses medicamentos atuam em uma região do cérebro chamada hipotálamo, estrutura responsável por regular uma ampla variedade de hormônios no corpo. Segundo ela, essa característica abre a possibilidade de influências ainda não totalmente mapeadas. A pesquisadora também ponderou que a constatação não significa necessariamente que os medicamentos estejam causando os sintomas, mas pode indicar que os relatos merecem ser estudados de forma mais sistemática.

Os relatos mais comuns nas publicações incluíam sintomas já amplamente conhecidos, como náusea, o que para o cientista da computação Sharath Chandra Guntuku serviu como validação do método utilizado. Ele explicou que quando o sistema identifica efeitos já documentados pela ciência, isso demonstra que a ferramenta está captando um sinal confiável a partir das conversas dos pacientes. Os sintomas considerados subnotificados ou menos discutidos na literatura, por outro lado, representam pistas que vieram dos próprios usuários de forma espontânea e que os profissionais de saúde poderiam potencialmente acompanhar com mais atenção.

Para processar o volume massivo de texto, os pesquisadores utilizaram os modelos GPT da OpenAI, que são sistemas de inteligência artificial generativa treinados para compreender e produzir linguagem natural. Segundo Guntuku, esse tipo de varredura em larga escala pode ser concluído em um período muito curto, o que representa uma vantagem relevante em relação ao ritmo mais lento dos ensaios clínicos tradicionais, que costumam levar anos para serem conduzidos.

A equipe também reconheceu limitações importantes do estudo. Como pouco se sabe sobre o perfil detalhado dos usuários que fizeram as postagens, a análise não permite afirmar de forma definitiva que os medicamentos causam os sintomas relatados. Além disso, a base de usuários do Reddit tende a ser composta predominantemente por adultos jovens, do sexo masculino e residentes nos Estados Unidos, o que restringe a representatividade da amostra em relação à população global que utiliza esses medicamentos.

Os medicamentos analisados pertencem à classe dos chamados agonistas do receptor GLP-1, denominação que vem do hormônio natural peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, que essas substâncias mimetizam no organismo. Eles atuam limitando o apetite, desacelerando a digestão e estimulando a liberação de insulina pelo pâncreas em resposta a níveis elevados de açúcar no sangue. Esses tratamentos estão associados a benefícios no controle de peso e no manejo do diabetes, mas pesquisas sobre outros efeitos potenciais ainda estão em andamento. Entre as consequências investigadas estão possível proteção contra o Alzheimer, melhora da saúde cardiovascular e maior risco de pancreatite aguda ou crônica, além da observação já conhecida de que é comum que pacientes recuperem a maior parte do peso após interromper o uso.

O cientista Lyle Ungar destacou o papel complementar que as redes sociais podem desempenhar nesse contexto, argumentando que ensaios clínicos geralmente identificam os efeitos colaterais mais perigosos dos medicamentos, mas podem deixar de encontrar sintomas que mais preocupam os pacientes no dia a dia. Para Guntuku, a principal vantagem dessa abordagem é justamente a velocidade com que os dados podem ser processados, o que se torna especialmente valioso quando um medicamento passa rapidamente de uso restrito à adoção ampla pela população.