A internet dos anos 2000 é lembrada por plataformas que atraíam multidões — MSN, Orkut e o Blogger estão entre as mais icônicas. Para muitos produtores de conteúdo daquela época, o Blogger foi o “berço”: pessoas criavam blogs hospedados no domínio “blogspot.com” e começaram ali suas trajetórias como criadores digitais.

O que é um blog e por que o Blogger fez tanto sucesso

Um blog é, basicamente, um espaço online onde autores publicam textos, fotos e outros conteúdos em formato cronológico. No início dos anos 2000, o Blogger se destacou por tornar essa publicação acessível a qualquer pessoa, sem necessidade de conhecimentos técnicos avançados. A plataforma foi criada em agosto de 1999 pela Pyra Labs, liderada por Ev Williams e Meg Hourihan. Em fevereiro de 2003, o Google adquiriu a companhia e impulsionou o serviço, que se tornou uma das ferramentas preferidas para publicar conteúdo na web.

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Na própria equipe do Blogger há registros do alcance da ferramenta: em 2010, foram publicados mais de meio bilhão de posts, lidos por cerca de 400 milhões de pessoas no mundo — números que traduzem a importância histórica da plataforma.

Oportunidades perdidas e críticas de Ev Williams

Apesar desses resultados, o domínio “.blogspot.com” perdeu ao longo do tempo o status de favorito entre criadores. Em 2015, Ev Williams, cofundador do Blogger e também responsável por plataformas como Twitter e Medium, publicou uma avaliação crítica: segundo ele, o Google tratou o Blogger apenas como um software de publicação, sem explorá-lo como uma rede de conexões entre usuários e conteúdos.

“Redes bem desenhadas reduzem o atrito e ajudam o que é bom a ser encontrado. As conexões permitem que o todo se torne maior do que a soma das partes e criam novos caminhos para descobrir e construir significado”, escreveu Williams. Para ele, essa visão estratégica limitada não prejudicou o tráfego do Blogger imediatamente — sua interface simples manteve dezenas de milhões de usuários por anos —, mas comprometeu a capacidade de sustentar uma base ativa no longo prazo.

Falta de grandes atualizações

Outra razão apontada para o declínio relativo do Blogger é a escassez de atualizações significativas. A última grande reformulação de interface listada oficialmente ocorreu em 2020, com mudanças em páginas como estatísticas, comentários e edição de posts, além de melhorias para dispositivos móveis. Em 2023, o Google lançou o Blogger Media Manager para gerenciar imagens e vídeos, em substituição ao Arquivo de Álbuns do Google.

Quanto aos aplicativos móveis, as lojas de Android e iOS mostram atualizações pontuais ao longo de 2025, incluindo correções de bugs, suporte a etiquetas e um novo feed para explorar publicações — alterações anunciadas de forma discreta, sem grandes comunicados oficiais do Google.

Para Gustavo Torrente, professor e head B2B da Alura e da FIAP, essa falta de anúncios robustos reflete a relação atual da gigante com o serviço. “O Blogger hoje sobrevive como um arquivo vivo da internet. Ele ainda abriga milhões de posts antigos bem indexados no Google e segue sendo usado em alguns nichos, especialmente em países emergentes. Mas, fora isso, não existem grandes inovações em relação a ele, nem relevância estratégica”, avalia Torrente.

Alternativas e mudança de comportamento dos criadores

Com o tempo, criadores que precisavam de recursos mais avançados migraram para outras plataformas. O WordPress, por exemplo, passou a ser uma opção atrativa para quem busca funcionalidades além do blog, como a construção de sites completos e lojas virtuais, seja via hospedagem própria ou pela plataforma da Automattic.

Além disso, o comportamento do público mudou: redes como Instagram e TikTok atraem grande parte dos criadores com formatos curtos, visuais e dinâmicos (Reels, Shorts, Stories), além de oferecerem atualizações e mecanismos de descoberta mais elaborados — precisamente os elementos que, na visão de Williams, faltaram ao Blogger. “O público não parou de criar conteúdo. Ele apenas mudou de endereço, e o Blogger ficou esperando visitas que não voltaram”, observa Torrente.

Riscos e um futuro incerto

O alerta sobre o destino de plataformas históricas foi reforçado recentemente pelo encerramento do TypePad, um dos primeiros serviços de blog, descontinuado em setembro de 2025. O Canaltech tentou contato com o Google para saber os planos futuros para o Blogger, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem.

Torrente ressalta que, sem investimentos concretos — por exemplo, ferramentas voltadas a criadores e recursos baseados em inteligência artificial —, o futuro do Blogger fica mais incerto. “Sem novos recursos e sem investimento real, o Blogger caminha para o mesmo destino de plataformas como o TypePad, que foram descontinuadas justamente por não evoluírem. Não parece que o fim seja imediato, mas a mensagem é clara: quando o custo de manter não fizer mais sentido, ele pode ser desligado sem cerimônia. Será que o Google vai enterrá-lo ou deixá-lo como um museu?”, questiona o professor.

Enquanto isso, o Blogger segue no ar, mantendo um vasto acervo de publicações que marcam a história da web — ainda ativo, embora com relevância e recursos muito diferentes dos anos de maior protagonismo.