Após anos de experimentação com inteligência artificial, varejistas buscam incorporar a visão do consumidor diretamente nas decisões comerciais do dia a dia. A First Insight, empresa americana de análise especializada em feedback preditivo do consumidor, defende que a próxima fase da IA no varejo deve privilegiar o diálogo em vez de dashboards.
Após um programa beta de três meses, a First Insight liberou sua nova ferramenta de IA, batizada de Ellis, para marcas e varejistas. Projetada como uma interface conversacional, Ellis permite que equipes de merchandising, precificação e planejamento façam perguntas sobre produtos, preços e demanda dentro da plataforma da First Insight. A empresa afirma que sua abordagem pretende reduzir o tempo de tomada de decisão para minutos.
Pesquisas da McKinsey mostram que, embora a maioria dos grandes varejistas já colete grandes volumes de dados do cliente, muitos não conseguem transformar esses insights em ações rápidas o suficiente para influenciar decisões sobre desenvolvimento de produtos. Segundo o estudo, ferramentas de IA que encurtam a distância entre insight e execução têm mais probabilidade de gerar valor comercial mensurável do que sistemas de relatório tradicionais.
Do dashboard ao diálogo
A First Insight já atua com varejistas como Boden, Family Dollar e Under Armour para prever demanda do consumidor, sensibilidade a preço e desempenho de produtos usando feedback de pesquisas e modelagem preditiva. Tradicionalmente, esse tipo de insight é entregue por meio de dashboards ou relatórios.
Ellis, no entanto, permite que usuários consultem esses insights de forma conversacional. Equipes podem, por exemplo, perguntar se um sortimento de seis ou nove itens deve ter desempenho superior em um mercado específico, ou como a remoção de determinados materiais pode afetar a atratividade de um produto. A First Insight afirma que o sistema devolve respostas fundamentadas nos modelos de dados já existentes da empresa.
Evidências do setor sugerem que esse método pode mitigar um gargalo comum na tomada de decisões do varejo. Uma análise da Harvard Business Review sobre organizações de varejo orientadas por dados encontrou que o valor do insight frequentemente se perde quando ele não está disponível rapidamente, especialmente em fases como revisão de linha (line review) ou desenvolvimento de conceito inicial.
Insights preditivos já em operação
As técnicas subjacentes usadas pela First Insight já são empregadas no setor varejista. A Under Armour, por exemplo, descreveu o uso de dados do consumidor e modelagem preditiva para ajustar sortimentos de produto e estratégias de preço, afirmando que a tecnologia ajuda a reduzir o risco de liquidações e a melhorar vendas a preço cheio.
De forma similar, a varejista de moda Boden revelou o papel do insight do cliente na orientação de decisões de sortimento, especialmente no equilíbrio entre itens guiados por tendências e artigos básicos. Embora essas empresas não divulguem detalhes de seus sistemas proprietários, esses casos ilustram como dados preditivos do consumidor podem ser integrados ao planejamento comercial.
Ferramentas comparáveis também são usadas em outros pontos do setor. Varejistas como Walmart e Target investiram em análises e machine learning para entender padrões de demanda regional, otimizar preços e testar novos conceitos. Um estudo da Deloitte sobre IA no varejo indica que empresas que utilizam insights preditivos do consumidor relatam maior precisão nas previsões e menor risco de estoque, especialmente quando a análise é integrada precocemente nos processos.
Precificação, sortimento e dinâmica competitiva
Ellis é alimentado pelo que a First Insight descreve como um "modelo de linguagem grande preditivo para varejo", treinado em dados de resposta do consumidor. A empresa diz que isso permite ao sistema responder perguntas sobre precificação ideal, taxas de venda previstas, tamanho ótimo de sortimento e preferências prováveis por segmento.
Esse foco está alinhado com pesquisas acadêmicas que mostram que otimização de preço e planejamento de sortimento estão entre os casos de uso de maior valor da IA no varejo. Um estudo publicado no Journal of Retailing constatou que modelos de precificação orientados por dados podem superar abordagens tradicionais de custo mais margem, especialmente quando a disposição a pagar do consumidor é medida diretamente.
O benchmarking competitivo é outro campo em que os varejistas se beneficiam de análises. Pesquisa da Bain & Company aponta que varejistas capazes de comparar seus produtos com os concorrentes estão em melhor posição para se diferenciar tanto em valor quanto em preço. Ferramentas que consolidam essas comparações em uma única camada analítica são vistas como ideais nesse sentido.
Tornando o insight mais acessível
Uma das alegações centrais da First Insight é que Ellis amplia o acesso ao insight do consumidor para além das equipes especializadas em analytics. Consultas em linguagem natural, argumenta a empresa, permitem que executivos seniores acessem dados sem precisar aguardar uma análise dedicada.
A democratização das análises é um tema recorrente em pesquisas do setor. A Gartner relata que organizações que ampliam o acesso às análises têm mais probabilidade de ver adoção das ferramentas e retorno sobre o investimento. Ao mesmo tempo, a consultoria alerta que esses sistemas devem ser governados para garantir que as saídas sejam interpretadas corretamente e derivem de dados robustos.
A First Insight sustenta que Ellis mantém o rigor metodológico de sua plataforma existente enquanto reduz o atrito no ponto de decisão. Greg Petro, CEO da empresa, afirma que o objetivo é levar o insight preditivo para o momento em que as decisões realmente são tomadas.
"Por quase 20 anos, a First Insight ajudou varejistas a prever preços, sucesso de produtos e decisões de sortimento ao fundamentá-las em feedback real do consumidor", disse um porta-voz da empresa. "Ellis traz essa inteligência diretamente para a revisão de linha, desenvolvimento de conceito inicial e para a sala de reuniões, ajudando as equipes a se moverem mais rápido sem sacrificar a confiança."
Um mercado concorrido, mas em expansão
A First Insight não é a única a mirar esse espaço. Fornecedores como EDITED, DynamicAction e RetailNext oferecem ferramentas de IA voltadas a merchandising e precificação. O diferencial das soluções mais recentes está na ênfase em usabilidade e velocidade, mais do que na complexidade dos modelos.
Um relatório recente da Forrester sobre IA no varejo observou que interfaces conversacionais estão sendo sobrepostas a plataformas analíticas consolidadas, refletindo a demanda dos usuários por uma interação mais intuitiva com os dados. Essas ferramentas tendem a melhorar a qualidade das decisões, embora dependam da qualidade dos dados e da disciplina organizacional.
A First Insight apresentou Ellis na conferência da National Retail Federation (NRF) em Nova York, onde ferramentas de merchandising e precificação impulsionadas por IA tiveram destaque. Em um ambiente marcado por demanda volátil, inflação e mudanças nas preferências do consumidor, a capacidade de testar cenários continua sendo um diferencial valioso para os varejistas.