Autor: Richard Farrell, CIO na Netcall

Depois de um ano de adoção rápida e expectativas elevadas em torno da inteligência artificial, 2026 tende a ser o ano em que os CIOs passam a aplicar uma lente mais estratégica. Não para frear o progresso, mas para direcioná‑lo de forma mais inteligente.

Em 2025 vimos a proliferação de copilotos de IA em praticamente todas as plataformas — de navegadores e CRMs a ferramentas de produtividade e helpdesks. O mercado correu para oferecer assistência sob demanda. Mas, enquanto fornecedores vendiam “soluções mágicas”, os CIOs tiveram que lidar com as consequências: múltiplos pilotos, plataformas diferentes, promessas diversas e poucos resultados concretos.

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A lua de mel acabou. É hora de avaliar o que funcionou, o que não deu certo e o que realmente importa. O papel do CIO desloca‑se do entusiasta de tecnologia para o arquiteto de resultados estratégicos. Isso significa deixar de lado experimentos desconectados e adotar um pensamento holístico — alinhando pessoas, processos e tecnologia para gerar resultados sustentáveis. O mapeamento de processos tornará-se ponto de partida essencial: identificar pontos de dor, ineficiências e áreas onde IA e automação se conectam diretamente a resultados mensuráveis. Dessa mudança emergem cinco prioridades que definirão 2026.

1) Inteligência de processos substituirá copilotos fragmentados

A promessa inicial dos copilotos de IA era atraente: economizar tempo, reduzir trabalho manual e turbinar produtividade. A realidade, porém, foi mais modesta. Avaliações independentes, incluindo um teste detalhado do UK Department for Business and Trade, apontaram melhorias de produtividade mínimas ou inexistentes. Apesar de relatos positivos dos usuários, os ganhos concretos foram poucos. Por quê? Porque essas ferramentas foram desenhadas para usuários individuais, não para organizações: atuavam sobre os fluxos de trabalho ao invés de melhorá‑los. Com frequência, o uso mais comum foi resumir atas de reunião — útil, mas pouco transformador.

Em 2026, os CIOs vão trocar soluções pontuais por plataformas de ponta a ponta. O objetivo será claro: usar IA para otimizar processos de negócio, não simplesmente adicionar recursos a softwares. Esse deslocamento do utilitário individual para a eficiência organizacional será o maior reset de IA do ano.

2) Consolidação vencerá a complexidade

Os CIOs lidam há muito tempo com ecossistemas tecnológicos espalhados e soluções sobrepostas, ligados por integrações frágeis. Em 2026, essa complexidade será escrutinada com mais rigor. Muitas ferramentas perseguindo poucos resultados já não é sustentável.

Haverá um movimento claro para simplificação — racionalizar stacks tecnológicos e trabalhar com parceiros que demonstrem interoperabilidade real. CIOs darão preferência a fornecedores que colaboram em vez de competirem, e que comprovem como suas soluções se integram ao ecossistema. Menos será mais, especialmente para impulsionar eficiência e velocidade.

Essa mudança envolve tanto estratégia de compra quanto tecnologia. CIOs vão optar por abordagens baseadas em plataformas que ofereçam flexibilidade para construir aplicações alinhadas a processos reais. A capacidade de gerar aplicações diretamente a partir de processos mapeados — refinando e melhorando de forma iterativa — permitirá às equipes digitais entregar mais rápido e com mais inteligência. Trata‑se de construir parcerias de longo prazo baseadas em metas compartilhadas e valor de negócio, não em sprints pontuais ou inovação em silos.

3) Governança ocupará o centro do palco

À medida que a IA escala, a governança se torna mais crucial. Em 2026, CIOs bem‑sucedidos vão incorporar guardrails em todo sistema inteligente. Isso significa deixar de lado a ideia de adaptar regras depois do fato e, em vez disso, projetar governança desde o início da implantação. Inclui trilhas de auditoria, regras de escalonamento e protocolos de privacidade, todos integrados à jornada do usuário por meio de frameworks intuitivos e adaptáveis. Modelos de escalonamento adequados e mecanismos com intervenção humana serão essenciais, assim como a governança dos dados — saber onde os dados estão, como são acessados e garantir privacidade desde o design.

Governança não é um freio ao progresso; é a base da confiança. Plataformas low‑code surgem como habilitadores importantes nessa mudança: além de acelerar o desenvolvimento, permitem que controles sejam embutidos diretamente no processo de construção. Essa abordagem sustenta a democratização do desenvolvimento, permitindo que equipes iterem, melhorem e escalem rapidamente sem comprometer a supervisão.

Portanto, conformidade não pode ser adicionada depois; precisa estar presente desde o começo. Isso acelera entregas e tranquiliza reguladores, clientes e equipes internas. A mudança garante que a automação apoie o julgamento humano, em vez de substituí‑lo — construindo sistemas em que as pessoas confiam, não apenas sistemas que funcionam.

4) Previsão deve ser seguida por ação

A IA é excelente em reconhecer padrões. Mas, se esses padrões não desencadearem intervenções, não mudam resultados. Um exemplo marcado dessa abordagem vem do Rotherham NHS Foundation Trust: ao integrar a IA diretamente em seus fluxos de trabalho, a instituição conseguiu reduzir em 67% as consultas perdidas entre pacientes mais propensos a faltar. Não foi apenas a capacidade do modelo de identificar riscos; foi o fato de que essa informação levou a um lembrete adicional, produzindo um impacto real na comunicação e no comportamento.

Em 2026, CIOs vão exigir esse tipo de resultado. Motores de previsão precisarão estar combinados com plataformas que permitam ação — seja para evitar faltas em atendimentos, seja para detectar anomalias de segurança antes de uma violação. O sucesso será medido pelo que a IA possibilita que as equipes façam de forma diferente.

5) Valor deve ser comprovado, não presumido

Uma tendência perigosa em 2025 foi construir cases de negócio com base em sentimentos. CIOs foram pressionados a demonstrar sucesso da IA por meio de satisfação do usuário ou estimativas de tempo economizado, muitas vezes autodeclaradas. O problema é que essas métricas são vagas, inconsistentes e difíceis de verificar. Em 2026, isso não será suficiente. Espera‑se que os CIOs mostrem causa e efeito claros. Se a IA está sendo usada, o que ela substituiu? O que melhorou? Que custo foi evitado?

É preciso substituir a mentalidade do "ticar a caixa" pela lente do valor. Isso implica pensar além da tecnologia e vincular iniciativas a resultados que interessam aos CEOs — crescimento, resiliência, satisfação do cliente e eficiência. Crucialmente, isso exige uma abordagem holística: não é só tecnologia. CIOs devem alinhar pessoas, processos e plataforma, começando por um mapeamento detalhado de processos para compreender como o trabalho é feito, onde estão as ineficiências e como esses insights se traduzem em aplicações mais inteligentes. Esses mapas tornam‑se plantas‑baixas para a construção, oferecendo um quadro para gerar aplicações que entreguem valor mensurável.

A resolução: liderança orientada a resultados

Ao longo da última década, os CIOs digitalizaram a empresa. Em 2026, o papel evolui novamente — de tecnólogos para arquitetos de resultados. Este ano não significa recuar da IA ou frear a inovação; significa clarificar. Clareza nas prioridades. Clareza na governança. Clareza no impacto.

Os melhores CIOs farão as perguntas mais difíceis. Estamos resolvendo um problema real ou apenas implantando tecnologia? Podemos medir o benefício, em vez de apenas esperá‑lo? Estamos construindo algo sustentável ou perseguindo o hype? 2026 é o ano de parar de experimentar por experimentar e começar a entregar para o negócio. A era dos objetos brilhantes acabou. É hora de substância. E isso começa por nós.

Autor: Richard Farrell, CIO na Netcall