A computação quântica tem o potencial de transformar setores como saúde, mobilidade urbana e logística ao permitir que computadores resolvam problemas altamente complexos em velocidade incomparável — algo que permanece inviável mesmo para os supermáquinas tradicionais. Essa tecnologia, capaz de otimizar desde tratamentos médicos até o fluxo de trânsito em grandes metrópoles, vem ganhando contornos mais concretos com o avanço dos protótipos desenvolvidos na última década. O primeiro teletransporte quântico entre computadores já foi realizado no mundo, o que ilustra parte desse progresso experimental.

O que é computação quântica?

Segundo o professor e empreendedor Alexandre Nascimento, PhD — especialista em computação quântica, membro da Singularity Brazil e CEO da Beyond the Hype — os últimos anos provaram, na prática, o potencial dessa abordagem. A principal diferença em relação a um computador clássico está na forma de processamento: enquanto máquinas tradicionais testam combinações uma a uma, computadores quânticos exploram propriedades da física quântica que permitem aos qubits existir em múltiplas combinações simultaneamente. Essa característica cria uma “distribuição de probabilidades” que orienta a busca por soluções de maneira muito mais eficiente, explica Nascimento ao Canaltech.

PUBLICIDADE

“[A computação quântica] complementa o computador tradicional. Tem problemas como o de logística, por exemplo, que varia milhões de anos para resolver, para achar a rota perfeita num computador tradicional, mesmo que fosse um supercomputador. Quando você vai para o computador quântico, ele entrega essa resposta muito mais rápido”, afirma o especialista.

Como escalar o uso dessa tecnologia

Apesar de já existirem computadores quânticos, suas aplicações ainda são limitadas e, hoje, concentram-se principalmente em governos e em empresas ligadas à defesa. Tornar a tecnologia viável para usos cotidianos é um desafio que grandes empresas como IBM, Google e Microsoft vêm enfrentando na corrida pelo desenvolvimento dessas máquinas.

Nascimento destaca alguns pré-requisitos e implicações que precisam ser considerados para que os computadores quânticos operem de maneira eficiente:

- Alta demanda de energia: o resfriamento do ambiente é fundamental para que os fenômenos quânticos ocorram. Isso explica parte do alto custo desses sistemas e levanta questões sobre impactos ambientais.

- Segurança e criptografia: a capacidade de processar certas operações em velocidades muito maiores traz riscos às chaves criptográficas atuais, o que exigirá novas pesquisas e investimentos em métodos de criptografia resistentes a ataques quânticos.

- Correção de erros: aumentar o número de qubits também eleva a probabilidade de erros; portanto, é necessário desenvolver técnicas eficientes de correção e processamento para manter a confiabilidade das máquinas.

Onde o Brasil se situa nessa corrida?

Do ponto de vista governamental e empresarial, a computação quântica é vista como um vetor de competitividade. O governo federal projeta investir R$ 5 bilhões em um plano nacional de computação quântica até 2034. Ainda assim, Nascimento aponta que essa iniciativa não necessariamente mudará a postura do país diante das novas tecnologias: “Nós vamos ter um pseudo protagonismo, porque nós vamos usar dinheiro para ser cliente de tecnologias de outros países”, avalia.

O especialista reforça que investimentos e a valorização da pesquisa deveriam nortear as ações brasileiras nesse campo, além de apontar as exigências técnicas e estruturais necessárias para trabalhar com computação quântica — muitos dos quais já citados, como infraestrutura de resfriamento, segurança e métodos de correção de erros.

Com protótipos cada vez mais maduros e um conjunto claro de desafios a superar, a computação quântica segue avançando de forma gradual, tornando cada vez mais plausível sua aplicação em problemas reais e de grande impacto social e econômico.