O episódio de uma competição entre desenvolvedores e inteligência artificial dentro de uma grande empresa expôs uma tensão crescente no setor de tecnologia: até que ponto as máquinas podem substituir programadores e até que ponto essa disputa realmente faz sentido. O caso foi relatado por um colunista do Olhar Digital após conversa com o presidente executivo e o chefe de engenharia de uma companhia de grande porte sobre a adoção de IA no desenvolvimento de software.

Segundo o relato, um dos líderes técnicos mais antigos da empresa, com mais de duas décadas de casa, decidiu fazer um teste. Ele colocou sua squad, termo usado para designar uma equipe ágil de desenvolvimento, para criar uma feature, ou seja, uma nova funcionalidade de um sistema. Em paralelo, usou uma IA para executar a mesma tarefa. O veredito do veterano foi direto: o humano fez muito melhor. A conclusão, porém, não encerrou o debate. O autor do texto admite que parte dele concordou imediatamente com o resultado, mas em seguida se questionou se não se tratava de purismo, o que ele chama de sua "alma de Dev Raiz", expressão que designa o programador da velha guarda, apegado às práticas tradicionais da profissão.

Para dimensionar esse incômodo, o colunista faz uma comparação histórica. Ele se pergunta qual teria sido a reação de Leonardo da Vinci diante do ChatGPT gerando belas imagens a partir de um comando, ou de Michelangelo vendo esculturas produzidas por uma impressora 3D. Programar sempre foi criar, argumenta. Era colocar lógica, arte e até um legado pessoal dentro das máquinas. Por isso, ver algo criado por uma pessoa sendo feito por um sistema não se resume à questão de o código funcionar ou não: trata-se de reconhecer ali decisões, cuidado e o caminho percorrido até a solução.

Dev Raiz x Inteligência Artificial: A Disputa Que Pode Transformar Programadores nos Incas do Código - Imagem complementar

Essa conexão entre código e identidade ficou evidente em um segundo episódio narrado no texto. Durante uma conversa com um especialista de uma grande empresa de tecnologia, o colunista foi surpreendido com a informação de que um código escrito por ele há cerca de vinte anos, em uma seguradora, ainda rodava naquela companhia. O nome dele havia sido encontrado nos comentários do programa. O sentimento relatado mudou da irritação para o orgulho, já que aquele código voltou a ser visto como uma obra pessoal, algo imaginado, construído e deixado funcionando no mundo, como uma pintura que segue pendurada em algum lugar.

O autor sugere que essa mistura de vaidade e identidade profissional pode explicar parte da resistência dos desenvolvedores à IA. Não seria apenas uma questão de desempenho técnico, mas o desconforto de ver a máquina ameaçando ocupar, pela primeira vez, um espaço que sempre pareceu exclusivamente humano. O questionamento que ficou da conversa com o executivo é se a equipe realmente foi melhor que a IA ou se o lado purista falou mais alto na avaliação do resultado.

PUBLICIDADE

Independentemente do veredito do teste, a tese central do texto é que a engenharia de software passou por mais mudanças nos últimos quatro anos do que nos trinta anteriores, e a razão é a inteligência artificial. Praticamente nenhuma etapa ficou intocada: da especificação ao teste, da arquitetura ao código, da documentação à manutenção. Para o colunista, o problema não é ser um Dev Raiz, mas continuar desenvolvendo software como se a IA não tivesse acontecido.

Como exemplo prático, ele cita participações em grandes migrações de sistemas, em que milhões de linhas de código precisavam ser lidas para entender o que o sistema realmente fazia, já que a documentação praticamente não existia. Batalhões de analistas abriam programas, liam regra por regra e traduziam tudo para depois alguém codificar novamente em uma arquitetura nova. Eram horas, dias e meses de trabalho. Hoje, segundo o texto, uma IA pode ajudar a ler código legado, explicar regras de negócio, mapear dependências, gerar documentação e acelerar etapas que antes consumiam meses. A ferramenta não fará tudo perfeitamente, admite o autor, mas o erro está em comparar a máquina com o melhor desenvolvedor da equipe. A pergunta mais útil seria outra: quanto do trabalho feito ontem ainda faz sentido ser feito da mesma forma hoje.

Sobre o futuro, o colunista afirma não saber quando os profissionais serão substituídos e desconfia de quem diz que sabe. Sua convicção é que quem não se adaptar terá cada vez menos espaço, com risco real de desemprego, enquanto quem se adaptar tende a se manter. Conhecimento profundo, arquitetura, experiência, repertório, criatividade e senso crítico continuam valendo, talvez até mais do que antes. O que mudou é o surgimento de uma nova camada, a IA, e ignorá-la em nome do purismo técnico é descrito como uma batalha perdida.

No fechamento, o autor pondera que talvez o Dev Raiz não desapareça, mas o jeito raiz de desenvolver software, sim. Para ilustrar, conta a reação da filha ao saber como as pessoas se orientavam antes do Google Maps: ela riu e disse que era como os incas faziam. A provocação final fica no ar: para a próxima geração, os desenvolvedores da velha guarda podem se tornar os incas da engenharia de software. E, para o colunista, tudo bem se esse for o desfecho.