Funcionários de três grandes editoras norte-americanas revelam que modelos de linguagem de grande escala, os chamados LLMs, sistemas de inteligência artificial capazes de gerar textos e imagens a partir de comandos, vêm sendo usados de forma discreta em diferentes etapas do processo editorial. Segundo apuração da revista WIRED, publicada em 9 de outubro, trabalhadores da Simon & Schuster, da HarperCollins e da Hachette relatam que a tecnologia já é empregada na produção de material publicitário, arte de capa, texto de contracapa e e-mails, frequentemente sem divulgação pública ou consentimento dos autores.
Os usos descritos pelos funcionários vão além de tarefas administrativas. As ferramentas escrevem textos de divulgação de livros e mensagens destinadas a agentes literários, enquanto parte da liderança estimula equipes juniores a se tornar defensoras da tecnologia dentro das empresas. Entre os temores levantados pelos trabalhadores estão a confidencialidade dos manuscritos ainda não publicados, o aumento da carga de trabalho e a adoção de softwares que, na avaliação deles, poderiam ajudar a substituí-los em suas funções.
Um dos episódios que chamou atenção do mercado aconteceu no início deste ano, quando agentes literários começaram a suspeitar que editores específicos das grandes editoras estavam usando inteligência artificial para escrever cartas de rejeição. Uma agente contou que, ao comparar com colegas e-mails sobre livros diferentes enviados pelos mesmos editores, perceberam os mesmos sinais clássicos de texto gerado por máquina, como a estrutura de contraste e a preferência por listas de três elementos. Funcionários da Simon & Schuster, da HarperCollins e da Hachette afirmam acreditar que as suspeitas dos agentes estavam corretas.
A adoção interna das ferramentas tem avançado mais rápido do que as regras para geri-las. Os funcionários relatam que as editoras utilizam inteligência artificial em ações de marketing e em e-mails para agentes sem orientação consistente sobre como divulgar essa prática, e que as salvaguardas para proteger manuscritos e as permissões de uso variam de empresa para empresa. Um funcionário atual da HarperCollins afirmou que a equipe não recebeu nenhuma diretriz sobre o que dizer a autores ou agentes a respeito do uso da tecnologia. Um indício adicional da mudança de postura veio da própria HarperCollins, que abriu uma vaga de diretor criativo exigindo conhecimento em inteligência artificial, o que aumentou as dúvidas dos funcionários sobre a posição da companhia.
A resistência dos trabalhadores já chegou a reuniões abertas com executivos e a uma carta assinada por funcionários da Simon & Schuster, movimentação impulsionada, em parte, pela exploração, por parte da empresa, do Blueprint, uma ferramenta da empresa Skan AI. Os funcionários temem que o programa, descrito como uma tecnologia de monitoramento, possa ser usado para avaliar e substituir funções humanas. O executivo-chefe da Simon & Schuster, Greg Greeley, afirmou em 6 de outubro que nenhuma decisão havia sido tomada sobre a adoção do Blueprint ou de outra ferramenta de monitoramento equivalente.
A tensão entre a liderança e o corpo editorial é analisada por Dan Sinykin, autor do livro "Big Fiction: How Conglomeration Changed the Publishing Industry and American Literature". Para ele, as cúpulas executivas das grandes editoras têm mais em comum com os executivos de outras grandes empresas norte-americanas do que com os próprios editores, publicitários e tradutores que trabalham para elas. "Elas estão sempre procurando maneiras de maximizar o lucro e, neste momento, estão testando o que conseguem fazer antes que haja uma revolta", declarou o autor.
Procurada, a Hachette respondeu por meio de um porta-voz, que afirmou que a empresa apoia o uso de ferramentas de inteligência artificial para fins operacionais, quando ajudam os livros de seus autores a alcançar mais leitores, mas que não apoia usos criativos da tecnologia, incluindo a comunicação com seus autores e parceiros. As outras editoras citadas na apuração não tiveram posicionamentos detalhados divulgados.
O quadro descrito pelos funcionários mostra um setor em transformação silenciosa, no qual três das cinco maiores editoras dos Estados Unidos incorporam inteligência artificial em atividades centrais do negócio, do marketing à comunicação com o mercado, enquanto a questão da transparência para autores, agentes e leitores permanece sem resposta clara. Pressionadas por reuniões, cartas e temores de substituição, as companhias agora enfrentam uma pergunta que atravessa toda a indústria: até onde o uso da tecnologia pode avançar antes que os próprios funcionários deixem de aceitá-lo em silêncio.