LibreOffice transforma ausência de IA generativa em argumento de venda e defende privacidade de documentos

O LibreOffice decidiu transformar uma ausência que já foi considerada limitação em argumento de venda em plena corrida da inteligência artificial. A suíte gratuita e de código aberto, ou seja, com código-fonte público que qualquer pessoa pode inspecionar, afirma que não oferecer IA generativa por padrão se tornou uma vantagem competitiva, especialmente para usuários e organizações preocupados com privacidade e com o controle sobre seus documentos. A posição foi detalhada pela The Document Foundation, entidade responsável pelo projeto, e repercutida pela TechCrunch nesta terça-feira (6).

A decisão coloca o LibreOffice em rota oposta àquela escolhida por Microsoft e Google. Enquanto os assistentes Copilot e Gemini ganham cada vez mais espaço dentro de Word, Excel e do pacote de aplicativos do Google Workspace, o projeto afirma que não pretende adicionar uma inteligência artificial integrada ao pacote no futuro próximo. A recusa, porém, não significa desprezo pela tecnologia. Segundo a fundação, a decisão pode ser reconsiderada caso surja uma implementação que cumpra os requisitos estabelecidos pelo próprio projeto.

LibreOffice Contra a Maré da IA: Como a Ausência de Inteligência Artificial Virou a Arma Secreta da Suíte Gratuita na Defesa da Sua Privacidade - Imagem complementar

A principal preocupação da organização está no destino dos dados usados pelos modelos. A The Document Foundation lembra que documentos de trabalho podem conter prontuários médicos, processos jurídicos, informações de estudantes e outros conteúdos confidenciais, o que torna essencial saber quando e para onde esses arquivos são enviados. É justamente essa lacuna de transparência que levou o projeto a estabelecer uma série de condições para uma eventual integração da tecnologia.

Entre os requisitos definidos estão permitir que o próprio usuário escolha onde o processamento da IA acontece, impedir o envio de conteúdo para servidores sem autorização expressa e evitar qualquer tipo de telemetria, que é a coleta automática de dados de uso do programa. Uma futura ferramenta também precisaria funcionar com diferentes provedores, em vez de depender da API — a interface usada para sistemas conversarem entre si — de uma única empresa, além de ser completamente opcional. Administradores de empresas, por exemplo, deveriam poder instalar o LibreOffice sem que qualquer recurso de inteligência artificial apareça na interface.

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De acordo com a fundação, atualmente não existe uma integração capaz de atender a todos esses critérios durante todo o ciclo de suporte de uma versão. Essa política já havia sido apresentada no LibreOffice 26.8, lançado em 26 de agosto. Na ocasião, a organização destacou que a suíte não possui recursos de IA generativa, não precisa de conexão com a internet para funcionar e não envia documentos para serviços remotos para processamento.

Quem quiser combinar o LibreOffice com modelos generativos, contudo, ainda encontra caminhos alternativos. O programa aceita extensões de terceiros capazes de conectar a suíte a ferramentas como Ollama, LM Studio e serviços compatíveis com a API da OpenAI. Algumas dessas opções permitem executar o modelo diretamente no computador, mantendo o conteúdo do documento no próprio dispositivo, sem transferi-lo para servidores externos. A The Document Foundation ressalta, porém, que essas extensões são desenvolvidas e mantidas por terceiros e recomenda verificar se alguma delas envia informações para serviços na nuvem.

A organização também afirma que continuará acompanhando a evolução do setor. Modelos locais, aqueles executados na própria máquina, estão se tornando mais acessíveis para computadores comuns e, caso surja uma solução que respeite os critérios estabelecidos, a inclusão de inteligência artificial no pacote poderá ser reavaliada.

Enquanto isso, Microsoft e Google seguem ampliando a integração da tecnologia justamente nos programas contra os quais o LibreOffice compete. O Copilot aparece dentro de Word, Excel e PowerPoint, com capacidade de criar, editar e analisar conteúdo nos arquivos. Em 2026, a Microsoft aprofundou essa integração com agentes capazes de executar ações em várias etapas diretamente nos documentos. No Google Workspace, o Gemini está integrado a serviços como Docs, Sheets, Slides, Gmail e Drive, podendo escrever textos, criar arquivos e buscar contexto em informações de diferentes aplicativos, dependendo dos recursos e permissões habilitados na conta.

As duas gigantes oferecem políticas e controles próprios para o tratamento de dados, especialmente em contas corporativas. A diferença defendida pelo LibreOffice está na arquitetura adotada: na instalação padrão, nenhum recurso generativo precisa acessar o conteúdo dos arquivos porque simplesmente não existe uma IA integrada ao pacote. O LibreOffice é gratuito, de código aberto e reúne alternativas ao Word, Excel e PowerPoint por meio dos aplicativos Writer, Calc e Impress. A versão 26.8 está disponível para Windows, macOS e Linux e pode ser obtida no site oficial do LibreOffice.