Acordo de IA entre gigantes da tecnologia e Casa Branca gera ceticismo sobre fiscalização

Seis das maiores empresas de inteligência artificial do mundo assinaram um acordo voluntário com a Casa Branca para implementar salvaguardas em seus modelos mais avançados, mas especialistas ouvidos pela revista americana Wired questionam se o compromisso tem força real. O documento foi divulgado após um almoço na Casa Branca com o presidente Donald Trump e líderes de companhias como OpenAI, Anthropic, Meta, Google, xAI e Nvidia. Na coletiva, Trump classificou o pacto como "moralmente vinculante", destacando que a adesão das companhias tem peso moral, mas não caráter legal.

O acordo estabelece quatro camadas de controle para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. A primeira envolve controles internos para monitorar a capacidade e o alinhamento dos modelos durante o treinamento e a implementação, com atenção especial a áreas como cibersegurança, biossegurança e ameaças químicas. A terceira camada prevê auditorias externas independentes para verificar se os sistemas funcionam conforme o planejado, enquanto a quarta institui comitês nos conselhos de administração das empresas para acompanhar os relatórios de segurança.

Promessas de Mindinho: Gigantes da IA Assinam Pacto com a Casa Branca, mas Ceticismo Domina a Questão da Fiscalização - Imagem complementar

Trump descreveu o documento como "quase uma constituição", embora tenha reconhecido que a maior parte da fiscalização ficará a cargo das próprias empresas, em um esquema de autorregulação. O texto final do acordo foi publicado pelo presidente em sua rede social Truth Social e contém um erro de digitação notável: a palavra "Unidos" aparece escrita como "Unites" na assinatura do presidente.

Entre os signatários estão Greg Brockman, presidente da OpenAI, Dario Amodei, diretor-executivo da Anthropic, Mark Zuckerberg, da Meta, Sundar Pichai, do Google, Elon Musk, da Tesla, SpaceX e xAI, e Jensen Huang, da Nvidia. Zuckerberg definiu o acordo como um "ponto de partida" para o setor, sugerindo que novas medidas podem ser incorporadas ao longo do tempo. O documento abre espaço para que, no futuro, os compromissos voluntários sejam transformados em leis ou regulamentos.

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Apesar do tom otimista do evento, a Wired destaca que o acordo não tem força de lei nem mecanismos concretos de fiscalização. A expressão "acordo de mindinha" foi citada por críticos como o deputado democrata Ro Khanna, representante do Vale do Silício, que publicou em sua rede social que os Estados Unidos são "uma nação de leis, não de promessas de mindinho". O parlamentar apresentou recentemente um projeto para impor limites ao aprimoramento recursivo autodirigido, uma técnica em que sistemas de IA aprendem a melhorar a si mesmos de forma iterativa.

O ceticismo em relação ao pacto aumentou após o jornal New York Post revelar que a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, conhecida pela sigla FTC, estaria planejando uma investigação abrangente sobre Anthropic, OpenAI e outros laboratórios de fronteira, além da organização sem fins lucrativos METR, que realiza avaliações independentes de modelos de inteligência artificial. A METR e os laboratórios não responderam aos pedidos de comentário da reportagem.

Douglas Farrar, ex-chefe de assuntos públicos da FTC durante a gestão de Lina Khan na presidência do órgão, afirmou que a investigação pode ser encorajadora para os americanos preocupados com os riscos da inteligência artificial, mas lembrou que Donald Trump controla a comissão, apesar de Andrew Ferguson ocupar a cadeira da presidência. Para Farrar, é improvável que o governo autorize qualquer ação legal concreta contra as empresas após o recente encontro com os executivos do setor.

Paralelamente ao acordo, Trump assinou uma ordem executiva para que o termo "inteligência artificial" passe a ser chamado de "superinteligência" em todos os documentos do governo federal. O presidente também afirmou estar "muito perto" de nomear um czare da inteligência artificial, cargo que coordenaria as políticas do setor dentro da administração norte-americana.

Trump enquadrou a corrida pelo desenvolvimento de inteligência artificial como uma competição global entre Estados Unidos e China, afirmando que o país está na frente e deve manter essa vantagem. Ele também enfatizou que não pretende sufocar o crescimento de uma tecnologia que, segundo ele, será maior do que a revolução industrial. No mesmo dia da divulgação do acordo, a Casa Branca apresentou um chatbot chamado America.gov, projetado para ajudar cidadãos a navegar pelos serviços governamentais.

Apesar das preocupações, a própria OpenAI tem admitido publicamente os desafios de segurança em seus sistemas. A empresa reconhece que agentes de inteligência artificial já invadiram sistemas de terceiros e que precisa melhorar suas práticas de segurança. Para especialistas ouvidos pela Wired, o acordo entre as gigantes de IA e o governo norte-americano, embora simbolicamente relevante, deixa em aberto a questão central sobre quem, de fato, garantirá que os sistemas mais poderosos do mundo operem de maneira segura e responsável.