Inteligência artificial emerge como nova fronteira geopolítica e Brasil busca se posicionar

O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, na Casa Branca, previsto para esta semana, coloca a inteligência artificial como um dos principais temas da agenda bilateral. O diálogo ocorre seis meses depois de Trump ter sido recebido na China e acontece em um momento em que a tecnologia se consolida como uma espécie de terceira potência nas disputas entre as duas maiores economias mundiais.

A Guerra da IA: Como a Rivalidade entre EUA e China Pode Transformar o Brasil em Potência da Nova Economia Digital - Imagem complementar

A corrida pelo desenvolvimento e pela implementação de sistemas de inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa comercial entre empresas e passou a ocupar o centro das preocupações estratégicas entre Washington e Pequim. Questões relacionadas à segurança dos modelos mais avançados, ao controle de chips e chipsets essenciais para o treinamento de algoritmos e à definição de regras globais para o uso da tecnologia estão entre os pontos que devem ganhar destaque nas conversas entre os dois líderes.

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Para o diretor executivo do KKR Global Institute, Vance Serchuk, o Brasil está bem posicionado para capturar oportunidades em meio à intensificação dessa competição. Segundo o especialista, a escalada da rivalidade entre Estados Unidos e China tende a abrir espaços para países que conseguem oferecer alternativas em infraestrutura, em capacidade de processamento e em fornecimento de energia, elementos fundamentais para a operação de grandes modelos de inteligência artificial.

Essa avaliação é compartilhada por Wolfgang Schwerdtle, responsável pelo escritório no Brasil do Fundo Soberano de Cingapura (GIC), um dos maiores investidores institucionais do mundo. Para ele, o avanço da inteligência artificial gera oportunidades concretas para o país, sobretudo na área de infraestrutura. A construção de data centers, a expansão de redes de energia limpa e a oferta de serviços de computação em nuvem aparecem como frentes em que o Brasil poderia atrair investimentos internacionais deslocados pela tensão geopolítica entre americanos e chineses.

A lógica por trás desse raciocínio envolve o conceito de "friendshoring" e "nearshoring", estratégias pelas quais empresas e fundosglobais redirecionam operações para países aliados ou geograficamente próximos a fim de reduzir riscos políticos e logísticos. Com a imposição de restrições americanas à venda de chips avançados para a China e com a resposta chinesa de buscar autossuficiência tecnológica, proveedores de infraestrutura digital em regiões neutras tendem a ganhar relevância.

O Brasil reúne algumas das condições necessárias para ocupar esse espaço, como uma matriz energética diversificada, com forte presença de fontes renováveis, uma rede de telecomunicações em expansão e um mercado consumidor de grande porte. Esses fatores, combinados com a necessidade global de processamento de dados em larga escala, podem transformar o país em um destino atrativo para investimentos voltados à infraestrutura de inteligência artificial.

Especialistas também apontam que a presença de fundos soberanos e gestoras internacionais com interesse no mercado brasileiro reforça a percepção de que o país pode se beneficiar da disputa entre as duas potências. A diversificação geográfica de investimentos em tecnologia deixou de ser apenas uma estratégia financeira e passou a ser considerada uma medida de segurança por parte de instituições que querem reduzir a exposição a eventuais sanções ou rupturas nas cadeias globais de suprimento de semicondutores.

A reunião entre Trump e Xi Jinping deve marcar mais um capítulo dessa nova geopolítica da inteligência artificial, na qual o domínio tecnológico se tornou inseparável do poder político e econômico. As decisões tomadas nas próximas semanas, tanto no campo das exportações de chips quanto no da regulamentação de modelos avançados, terão impacto direto sobre como países como o Brasil poderão se inserir nesse novo mapa global.

Nesse cenário, a capacidade de oferecer infraestrutura confiável, energia abundante e um ambiente regulatório estável se torna um diferencial competitivo. O Brasil, ao reunir essas condições, tem a oportunidade de transformar a rivalidade entre Estados Unidos e China em uma vantagem estratégica, posicionando-se como um fornecedor relevante de serviços e infraestrutura para a nova economia impulsionada pela inteligência artificial.