A taxa de utilização de inteligência artificial em empresas brasileiras subiu de 13% em 2024 para 17% em 2025, impulsionando debates sobre como pequenas e médias organizações podem transformar inovação técnica em retorno financeiro palpável. A pesquisa TIC Empresas 2025, conduzida pelo Cetic.br e NIC.br com 4.174 companhias e divulgada em junho de 2026, revelou que o avanço tecnológico acentuou o abismo operacional entre pequenos e grandes negócios. Essa disparidade evidencia que a simples aquisição de novas ferramentas digitais não assegura lucros automáticos sem uma reestruturação profunda nos processos corporativos.
O estudo aponta que apenas 15% dos pequenos estabelecimentos, que possuem entre 10 e 49 funcionários, utilizam sistemas inteligentes, contra 50% das grandes corporações. Essa distância entre os dois portes operacionais aumentou de 28 para 35 pontos percentuais em um único ano. O panorama demonstra que o acesso a modelos computacionais avançados permanece concentrado em estruturas empresariais com maior poder de investimento e recursos de infraestrutura.
No panorama global, levantamentos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, indicam tendências semelhantes com base na análise de 5.232 pequenas e médias empresas espalhadas por sete nações. Entre as organizações internacionais que já adotam inteligência artificial generativa, 65,1% afirmaram notar aprimoramentos no desempenho funcional dos colaboradores. Além disso, 45,2% registraram redução nos custos e 25,9% relataram aumento de receita líquida, embora esses índices reflitam percepções declaradas e não uma relação direta de causa e efeito.
Erica Berbel, executiva especializada em tecnologia e transformação empresarial com vinte anos de experiência, pondera que economizar horas de expediente em uma tarefa isolada não se traduz mecanicamente em expansão de receitas ou em corte real de despesas. A especialista salienta que o mercado discute intensamente instruções operacionais, termos e ferramentas, mas negligencia o foco na aplicação prática do dia a dia. Para ela, o diagnóstico das operações deve sempre priorizar a identificação das dores antes da escolha de qualquer recurso digital.
No Brasil, 80% dos negócios que empregam sistemas de inteligência artificial optaram pela compra de programas de computador prontos para uso comercial. Ao mesmo tempo, 60% das organizações contrataram prestadores externos de serviços para construir ou customizar aplicações sob medida. Essa combinação flexibiliza a execução de testes operacionais em diferentes escalas, mas não elimina as despesas adicionais vinculadas a projetos dessa natureza.
O dispêndio financeiro com licenças de software representa apenas uma fração do investimento indispensável para colher bons resultados técnicos. A implantação exige também a integração com sistemas computacionais legados pré-existentes, o saneamento e tratamento de bases de dados, a reciclagem das equipes técnicas, a manutenção corretiva e a supervisão contínua das atividades computacionais. Desconsiderar essas etapas secundárias costuma comprometer a viabilidade econômica dos projetos.
A pesquisa internacional realizada pela OCDE também mapeou os principais entraves que afastam as organizações menores da inteligência artificial generativa. Entre as companhias que ainda rejeitam a novidade, 57% consideram que os sistemas disponíveis são inadequados para as rotinas do negócio. Simultaneamente, 54% expressam preocupações com leis de propriedade intelectual e conformidades regulatórias.
Outros fatores relevantes incluem o receio com a privacidade e o destino das informações corporativas inseridas nos modelos computacionais, barreira citada por 52% dos entrevistados da OCDE. A ausência de capacitação e competências técnicas internas completou a lista de obstáculos para 50% dos gestores. Embora reflitam prioritariamente mercados estrangeiros, esses gargalos estruturais funcionam como um alerta direto para companhias brasileiras em processo de modernização.
Para contornar as incertezas, Berbel orienta as lideranças a realizarem um levantamento detalhado das tarefas com grande repetição manual, gargalos de entrega, erros recorrentes e etapas que travam o suporte aos clientes. As implementações precisam equilibrar o retorno esperado, os riscos associados e a viabilidade operacional. O acompanhamento dos processos deve apoiar-se em métricas objetivas estabelecidas previamente, a exemplo do tempo gasto por atividade, custos de atendimento, índice de retrabalho e prazo de resolução.
A automação desenfreada e indiscriminada tende a desperdiçar tempo e recursos financeiros nas pequenas empresas, sem resolver problemas crônicos de produtividade. O objetivo da tecnologia nas rotinas das pequenas companhias precisa ser a reconfiguração estratégica das funções e a melhoria operacional contínua, garantindo que o tempo poupado gere valor financeiro real e fortaleça a sustentabilidade do negócio.