Chefe da ONU alerta para corrida global pela inteligência artificial e defende cooperação internacional
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, afirmou nesta quarta-feira (16) que os riscos associados ao rápido avanço da inteligência artificial não podem ser ignorados. A declaração foi feita às vésperas da Assembleia Geral da ONU, que será realizada na próxima semana em Nova York, nos Estados Unidos, e coloca em evidência a divergência de visões entre a ONU e o governo norte-americano sobre como regular a tecnologia.
Para Guterres, a necessidade de uma supervisão mais rigorosa da inteligência artificial estará entre os temas centrais de seus encontros com líderes mundiais durante o encontro anual. Ele declarou que os países não podem se dar ao luxo de ignorar as preocupações levantadas, especialmente por aqueles que estão diretamente envolvidos no desenvolvimento da IA. O secretário-geral também afirmou que é responsabilidade primeira de qualquer governo proteger seus cidadãos, inclusive das possíveis ameaças representadas pela tecnologia.
A posição de Guterres contrasta diretamente com a adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na segunda-feira (14), Trump afirmou que o país já conta com mecanismos de proteção suficientes para regular empresas de inteligência artificial e responsabilizá-las quando necessário. O presidente também argumentou que levantar dúvidas sobre o desenvolvimento da IA poderia beneficiar a China, principal rival dos Estados Unidos na disputa tecnológica global.
O alerta do chefe da ONU acontece em um momento de crescentes preocupações dentro do próprio setor de inteligência artificial. Na semana passada, o pesquisador Jacob Coxon deixou a empresa Anthropic e afirmou que uma das razões para sua saída foi o receio de que pessoas envolvidas no desenvolvimento da tecnologia acreditam que a IA poderia representar uma ameaça extrema à humanidade até o fim da década. Executivos de algumas das maiores empresas do setor também passaram a defender publicamente uma desaceleração no desenvolvimento da tecnologia diante dos riscos apontados.
Guterres defende há anos a criação de mecanismos internacionais de governança para a inteligência artificial. Em 2023, a ONU criou um órgão consultivo formado por 39 integrantes, incluindo executivos de empresas de tecnologia, autoridades governamentais e pesquisadores de países como Estados Unidos, Rússia e Japão. O Conselho de Segurança da ONU também poderá realizar uma reunião sobre o tema na próxima semana, durante o encontro de líderes mundiais em Nova York. O órgão já havia promovido sua primeira reunião dedicada à inteligência artificial em 2023.
Para o secretário-geral, os países com maior capacidade de desenvolver sistemas de IA de ponta, conhecidos como sistemas de fronteira, deveriam estabelecer canais permanentes de contato e troca de informações, além de mecanismos comuns de segurança. Segundo Guterres, a ausência de coordenação poderia levar as nações a uma corrida em direção ao desenvolvimento de sistemas cada vez mais poderosos, aumentando os riscos de desastre em escala global. Ele defendeu a construção de um entendimento compartilhado sobre como promover o desenvolvimento seguro e responsável da inteligência artificial, identificando quando sistemas cada vez mais avançados podem exigir salvaguardas mais fortes.
O tema também deverá marcar as discussões bilaterais entre Estados Unidos e China. Trump tem uma reunião prevista com o presidente chinês Xi Jinping na próxima semana, em Washington. Separadamente, os dois países planejavam realizar um encontro em meados de setembro, conduzido por autoridades de escalões inferiores, para discutir os riscos associados à inteligência artificial. A iniciativa aponta para uma tentativa de diálogo entre as duas maiores potências tecnológicas do mundo, mesmo diante das divergências públicas entre seus líderes sobre o ritmo e a forma de regulação da IA.