Pisa 2025 revela padrão curioso: alunos que nunca usam IA e os que usam muito tendem a ter desempenho melhor do que os que adotam a tecnologia de forma esporádica
Pela primeira vez, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) incluiu em sua pesquisa uma análise sobre o impacto da inteligência artificial nos estudos. O levantamento, realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem como objetivo medir o conhecimento de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. Os resultados da edição de 2025 foram divulgados na terça-feira (8) e trouxeram dados inéditos sobre a relação entre o uso de IA e o aprendizado.
Os números mostram que pelo menos uma vez por semana quase metade dos alunos brasileiros, precisamente 48%, utiliza chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT, para estudar. A média da OCDE ficou em 46%, o que coloca o Brasil acima do padrão internacional. Entre os usos mais frequentes, destacam-se atividades como resumir leituras, realizar pesquisas preliminares e redigir redações. O dado que chamou a atenção, porém, foi outro: alunos que utilizam IA com frequência para essas finalidades obtêm, em média, 20 pontos a menos em ciências do que aqueles que não recorrem à tecnologia. Segundo a métrica da OCDE, essa diferença equivale a perder um ano inteiro de escolaridade em relação aos colegas.
Para compreender o que está por trás desses números, o físico pela USP e especialista em inteligência artificial pela Universidade de Stanford Roberto "Pena" Spinelli propôs uma leitura dividida em três perfis de estudantes. O primeiro grupo é formado por alunos que dizem nunca usar IA. De acordo com o especialista, esses estudantes não recorrem a atalhos tecnológicos e acabam exercitando o próprio senso crítico e a memorização. Como não delegam tarefas à inteligência artificial, tendem a apresentar um bom desempenho. O segundo grupo reúne os alunos que utilizam IA de forma intensa. Para Spinelli, esse uso elevado pode funcionar como uma espécie de tutor personalizado, capaz de esclarecer dúvidas com rapidez e oferecer novas formas de aprender. O terceiro grupo, considerado o mais preocupante pelo especialista, é composto por estudantes que adotam a IA de maneira esporádica, muitas vezes pedindo que a ferramenta faça o trabalho escolar por eles, sem revisão ou reflexão. Esse comportamento, segundo o especialista, pode representar o pior uso da tecnologia, pois o aluno delega seu pensamento e, ao chegar à prova, não consegue responder por conta própria.
Apesar desses riscos, o Pisa 2025 também revelou que os estudantes brasileiros usam IA acima da média da OCDE em duas categorias consideradas positivas pelo especialista: ajudar a aprender e realizar pesquisas preliminares sobre novos temas. No caso das pesquisas preliminares, a média do Brasil foi de 40%, contra 31% da OCDE. Fazer pesquisa preliminar em um chatbot significa utilizá-lo como ponto de partida, substituindo uma busca tradicional em mecanismos como o Google. Para Spinelli, esse tipo de uso pode ser benéfico, desde que o aluno não peça à ferramenta que redija diretamente o trabalho final.
O especialista também chamou a atenção para o fato de que o Brasil e o mundo vivem um momento de transição no uso da inteligência artificial na educação. Metade dos alunos já utiliza a tecnologia de alguma forma, enquanto a outra metade ainda não incorporou essas ferramentas à rotina de estudos. Spinelli lembrou que o brasileiro costuma ser um usuário precoce de novas tecnologias, o que torna ainda mais importante analisar os desafios inerentes a esse processo. Para ele, o caminho passa por entender como a IA pode ser usada de maneira proveitosa, evitando que os estudantes simplesmente transfiram para a máquina tarefas que deveriam contribuir para sua formação.
Os resultados do Pisa 2025 indicam que o impacto da inteligência artificial no aprendizado não pode ser avaliado de forma simplista. O uso frequente e bem direcionado pode oferecer benefícios reais, como acesso a um suporte personalizado fora da sala de aula, enquanto o uso esporádico e sem critério tende a comprometer o rendimento. A próxima edição do Pisa e os desdobramentos nos sistemas de ensino ao redor do mundo devem ajudar a esclarecer como alunos, professores e instituições podem tirar o melhor proveito dessa tecnologia em transformação.