Rótulo de IA do Instagram rotula fotos reais e ignora imagens geradas por inteligência artificial

O sistema de identificação automática de inteligência artificial presente no Instagram, mantido pela Meta, vem apresentando um comportamento contraditório que tem gerado críticas entre criadores de conteúdo, marcas e profissionais de imagem. De um lado, fotografias reais que passaram apenas por edições simples ou ajustes feitos com ferramentas assistivas baseadas em aprendizado de máquina têm recebido automaticamente o rótulo "Conteúdo de IA". De outro, imagens totalmente criadas por modelos generativos conseguem ser publicadas na plataforma sem qualquer aviso ao público. O resultado é um cenário de classificação confuso, no qual nem sempre a etiqueta reflete com precisão a origem do material exibido.

Instagram erra na mira: fotos reais ganham selo de IA enquanto imagens sintéticas circulam sem identificação - Imagem complementar

A inconsistência não é exatamente nova. Em 2024, poucos meses depois de lançar o selo "Made by AI", a Meta já havia enfrentado críticas por identificar como conteúdo gerado por inteligência artificial imagens que tinham passado por alterações consideradas básicas pelos próprios criadores. Na ocasião, a empresa afirmou que ajustaria o sistema para considerar a "quantidade de IA usada em uma imagem" e mencionou padrões da indústria, como os metadados IPTC e C2PA, que são informações técnicas embutidas em arquivos de imagem para indicar sua procedência. Mesmo assim, a companhia nunca detalhou quais sinais são analisados pelo algoritmo atualmente, e novos relatos mostram que o problema persiste.

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No Threads, plataforma também operada pela Meta, diversos usuários relataram ter recebido o rótulo "Conteúdo de IA" após utilizarem o removedor de fundo do Canva ou recursos destinados apenas a eliminar pequenas imperfeições de uma fotografia. A própria página de ajuda do Canva afirma que a ferramenta de remoção de fundo não adiciona metadados de conteúdo gerado por IA ao design finalizado, o que torna ainda mais difícil entender por que a publicação é sinalizada pela rede social.

A estrategista de conteúdo Jess Bruno compartilhou no Threads um caso semelhante envolvendo o Canva. Segundo ela, algumas ferramentas da plataforma faziam o Instagram identificar as imagens como conteúdo gerado por IA. O Canva afirmou que corrigiu o problema, mas outros usuários continuaram relatando situações parecidas, o que indica que a falha pode estar mais relacionada ao mecanismo de leitura da Meta do que às ferramentas de edição em si.

Um dos episódios que chamou atenção envolveu a About Face, marca de cosméticos da cantora Halsey. A empresa relatou que fotografias reais, feitas com iPhone e submetidas apenas a edições leves, foram identificadas pelo Instagram como conteúdo de IA. A marca destacou que as imagens utilizavam pessoas e artistas reais, sem geração de personagens sintéticos nem composição automatizada. Esse tipo de situação é especialmente preocupante porque recursos de edição assistida já fazem parte do fluxo de trabalho cotidiano de fotógrafos, designers, marcas e criadores de conteúdo em geral. Utilizar uma ferramenta baseada em aprendizado de máquina para remover um objeto ou suavizar uma área da foto não significa, necessariamente, que a imagem tenha sido criada por inteligência artificial.

O portal The Verge conduziu testes com diferentes ferramentas de edição e geração de imagens para investigar o comportamento do sistema. Foram avaliados o recurso de apagar fundos do Photoshop, funções generativas do Adobe Firefly, o modelo Google Nano Banana disponível no Gemini e recursos do Apple Intelligence. O resultado mostrou que apenas as imagens editadas ou geradas pelas próprias ferramentas de inteligência artificial da Meta foram as que ativaram o rótulo de forma consistente, o que levanta dúvidas sobre os critérios técnicos realmente utilizados pela plataforma.

Para fotógrafos, marcas e criadores, receber um aviso de que uma imagem é gerada por IA pode passar ao público uma impressão equivocada sobre a forma como o conteúdo foi produzido. Uma fotografia registrada por uma câmera e posteriormente editada com uma ferramenta de remoção de objetos não deveria, em princípio, ser apresentada da mesma maneira que uma cena criada inteiramente por um modelo generativo. Por outro lado, quando uma imagem totalmente sintética não recebe qualquer identificação, o público deixa de ter qualquer indicação de que aquela cena nunca existiu fora do computador. Nos dois casos, a falta de precisão do mecanismo compromete a função informativa do rótulo e reforça a necessidade de maior transparência por parte da Meta sobre os critérios adotados em seu sistema de detecção.