Dados de drones da Ucrânia alimentam mercado paralelo de treinamento de inteligência artificial
Os campos de batalha da Ucrânia estão cobertos pelos destroços de drones, armas que se consolidaram como peça central da guerra moderna. Mas por trás desse volume de equipamentos destruídos, surge um novo recurso estratégico para o setor de defesa. Os dados gerados pelos drones durante os combates tendem a ultrapassar em relevância os próprios conflitos nos quais são coletados, tornando-se parte da arquitetura de inteligência artificial que influencia até a vida civil.
A transformação desse material em produto comercial está em curso. O Ministério da Defesa da Ucrânia anunciou em janeiro que disponibilizaria milhões de pontos de dados coletados em dezenas de milhares de voos de drones para empresas militares e companhias comerciais. Desde então, mais de cem empresas e o governo do Reino Unido já obtiveram acesso ao acervo. Para um país em guerra, trata-se de uma estratégia para atrair investimentos e parcerias. A medida, porém, converte a linha de frente em um ambiente ativo de treinamento de modelos de IA, aproveitando o caos da guerra para reproduzir condições que empresas de tecnologia têm dificuldade de simular em ambientes controlados.
A experiência anterior dos Estados Unidos mostra que o uso de dados de guerra para treinar sistemas autônomos não é novidade. Drones americanos sobrevoaram a Síria e o Iêmen e geraram registros que alimentaram a primeira geração de hardware militar semiautônomo no final da década de 2010. A diferença atual está na abertura do ecossistema. O valor financeiro para as empresas de defesa é expressivo, porque os dados de campo de batalha oferecem grandes volumes de experiência de máquina em condições que nenhum laboratório consegue reproduzir.
O que torna esses dados tão valiosos para o treinamento de modelos de IA são justamente as exceções: o momento em que a visibilidade desaparece, um sinal é bloqueado por interferência ou um operador humano precisa improvisar. Empresas de inteligência artificial gastam anos e somas enormes tentando capturar essas situações para tornar seus modelos mais robustos. A guerra produz essas ocorrências em uma frequência que testes controlados não conseguem acompanhar. Essa variabilidade é o que faz com que os dados de drone tenham utilidade muito além do uso militar. Um drone comercial de entrega ou mapeamento pode nunca enfrentar fogo de artilharia, mas precisa operar com informações incompletas em um ambiente onde pessoas se comportam de maneira imprevisível. A guerra comprime esse mesmo problema em um intervalo de tempo muito menor.
Ao serem processados e cruzados com os registros das ações dos operadores, os dados de operação se transformam em conjuntos de treinamento. O combate passa a ser um ativo comercial. Diversos conflitos já passaram por esse ciclo de aprendizado, em que imagens de drones alimentam gerações seguintes de tecnologia militar, e o mercado deve continuar se expandindo. A empresa americana Enabled Intelligence, especializada em processar dados para torná-los utilizáveis no treinamento de IA, afirma já ter disponibilizado mais de quinhentas mil horas de imagens de drones ucranianos para a próxima rodada de modelos, com aplicações possíveis tanto em sistemas militares quanto comerciais.
Muitos dos drones que hoje definem a guerra moderna começaram como tecnologia civil. Recentemente, foram potencializados por sistemas de IA disponíveis no mercado, que permitem a máquinas baratas operar de forma autônoma, individualmente ou em enxames, conforme o ambiente muda. Cada voo gera um registro do que o sistema encontrou, e esse dado é considerado essencial. Os ambientes controlados de laboratório conseguem simular falhas, mas não se comparam às condições reais de um campo de batalha com riscos concretos.
Programas militares de inteligência, como o Project Maven, mantiveram por quase uma década dados gerados por sistemas repletos de sensores, como os drones Predator e Reaper. O acesso, no entanto, permaneceu restrito ao universo da defesa. Os dados ficavam disponíveis apenas por canais classificados, com o objetivo de desenvolver novos sistemas de armas que retornariam ao mesmo aparato militar que os produziu. Hoje, essa experiência está sendo compartilhada com uma rede de desenvolvimento muito mais ampla.
O ciclo se completa quando tecnologias comerciais adaptadas para o campo de batalha geram dados que retornam às indústrias de origem, tornando-se parte da infraestrutura de dados usada por governos e pelo setor privado. Drones treinados no espaço aéreo ucraniano, marcado por interferências de sinal, já estão sendo usados no setor agrícola para mapear e monitorar plantações em regiões sem cobertura de celular suficiente para as gerações anteriores de tecnologia.
Outros países tendem a seguir o exemplo da Ucrânia na comercialização de dados de campo de batalha, e a sociedade não está preparada para o novo mercado que isso cria. Atores mal-intencionados poderiam adquirir esses dados, mas controles de compra já mitigam esse risco. Órgãos de inteligência analisam a infraestrutura de potenciais compradores para identificar formas de os dados chegarem a inimigos ou agentes prejudiciais. Ainda assim, surge um novo problema de rastreabilidade. Enquanto o movimento de conjuntos de dados comerciais pode ser monitorado quando detalhes de contato aparecem a dois passos do comprador original, a procedência dos dados de treinamento de IA se dissolve na própria tecnologia.
Outro risco é a criação de uma economia extrativa, na qual países mais ricos e distantes dos conflitos se beneficiam da ameaça mortal enfrentada por Estados na linha de frente, gerando um incentivo de mercado para que a guerra continue como uma mina infinita de ouro digital.
As leis existentes regulam a forma como as forças armadas conduzem guerras, mas dizem quase nada sobre o que acontece quando registros criados em combate são retirados de seu contexto operacional, empacotados como dados e licenciados para empresas cujos produtos circulam muito além de onde foram gerados. As responsabilidades das empresas que projetam esses sistemas seguem indefinidas. A Ucrânia está construindo controles de acesso, mencionados no acordo de IA entre Reino Unido e Ucrânia recém-assinado, mas nenhum governo trabalha ativamente para regular o que ocorre quando os dados são absorvidos por um modelo e retornam aos mercados civis.
Esses registros contêm vidas humanas. Os soldados e civis visíveis neles não concordaram em se tornar material de treinamento para produtos que podem ser vendidos anos depois. Imagens de sensores, gravações e coordenadas de civis fugindo de um ataque de drone agora integram o tipo de dado que orienta como futuras máquinas tomarão decisões. Esse é um problema de consentimento. Indivíduos presentes nos dados, sejam alvos, operadores ou civis nas proximidades, passam a fazer parte do material de treinamento. As capacidades autônomas baseadas nesses dados não param na borda do campo de batalha e migram para outros sistemas militares ou comerciais, como veículos de entrega ou máquinas agrícolas. Erros e suposições embutidos nos dados acompanham o modelo mesmo depois de chegar à vida civil.
Dados de campo de batalha não deveriam ser tratados como material comercial comum, mas hoje não existe agência ou regulador com jurisdição sobre o tema. Enquanto isso, governos que concedem acesso a dados de defesa deveriam tratá-los como transferências de armas controladas, registrando a origem, licenciando os usuários e restringindo o compartilhamento posterior. A Ucrânia começou a lidar com a questão por meio do programa Avengers Labs, que permite empresas treinarem modelos com dados de combate sem acesso direto aos bancos sensíveis, embora a iniciativa resolva apenas parte do problema.
Para se proteger dos excessos dessa nova indústria, é necessário um sistema regulatório que acompanhe os dados de campo de batalha em qualquer lugar por onde passem, do combate ao modelo até o produto comercial. O que essas empresas realmente extraem é a experiência vivida, e soldados não podem consentir que sua vivência seja convertida em dados de treinamento que geram vantagem competitiva para produtos usados longe do cenário onde a guerra aconteceu.