O diretor-presidente da Nvidia, Jensen Huang, pediu aos países do G20 que evitem elaborar regulamentações de inteligência artificial concentradas em danos considerados teóricos e que, em vez disso, desenvolvam regras voltadas a problemas concretos relacionados à tecnologia. A declaração foi feita nesta quarta-feira (2), durante uma reunião do bloco dedicada a tecnologia, realizada na cidade de Chapel Hill, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Como o Brasil é membro do G20, o posicionamento repercute diretamente no debate sobre o futuro da regulação da inteligência artificial no país.
A Nvidia é uma das principais fabricantes mundiais de processadores usados em sistemas de inteligência artificial, o que confere a Huang peso considerável nas discussões globais sobre o setor. A reunião em Chapel Hill reúne representantes das economias que compõem o grupo e tornou-se palco de uma disputa de influência sobre como o mundo deve regular uma tecnologia que avança em ritmo acelerado.
Huang fez o pronunciamento ao lado do secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick. A agenda do encontro também prevê a participação de dois dos nomes mais conhecidos da indústria de inteligência artificial: Sam Altman, da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, e Tom Brown, da Anthropic, criadora do modelo Claude.
A mensagem do executivo da Nvidia ecoou as manifestações feitas na terça-feira (1º), na primeira parte da reunião, pelo governo do presidente americano Donald Trump e por outros executivos do setor de tecnologia dos Estados Unidos. Houve alinhamento explícito entre o discurso do empresário e a posição defendida pela administração americana ao longo do evento.
O interesse das companhias é compreensível do ponto de vista comercial. Os executivos do setor buscam menos regulamentação em todo o mundo para seus negócios em rápido crescimento ou tentam influenciar o desenho das regras à medida que elas são elaboradas. Restrições criadas agora podem definir por décadas os limites de atuação de empresas que dependem de liberdade para lançar produtos e atualizar modelos.
O ponto crítico é o impacto financeiro. Exigências do governo federal americano poderão prejudicar os lucros do setor caso atrasem o lançamento de novos modelos de inteligência artificial ou levem as empresas a alterar o funcionamento de seus produtos para atender a preocupações relacionadas à segurança. Cada ciclo de lançamento movimenta bilhões em receita e consolida posições competitivas em um mercado disputado por poucas companhias.
A estratégia americana no encontro ficou clara na terça-feira, quando Michael Kratsios, assessor de tecnologia do presidente Donald Trump, afirmou que os Estados Unidos pretendem convencer os integrantes do G20 presentes ao encontro a evitar a elaboração de regulamentações inteiramente novas para a inteligência artificial. Em lugar disso, a proposta é concentrar esforços na criação de regras apenas para situações consideradas inéditas, que escapem dos marcos jurídicos existentes.
A distinção entre danos teóricos e danos concretos está no centro dessa disputa. Regulações baseadas em riscos hipotéticos tendem a impor obrigações preventivas amplas, com avaliações de impacto, auditorias e restrições prévias ao desenvolvimento. Abordagens focadas em problemas comprovados tendem a intervir somente depois que um dano identificável ocorre, o que reduz custos de conformidade para as empresas.
Para as gigantes do setor, o segundo modelo é o preferido. A fala de Huang em Chapel Hill traduz essa preferência em uma recomendação direta aos governos do G20, grupo que reúne as maiores economias do planeta e cujas decisões costumam orientar tendências regulatórias internacionais.
A presença simultânea de autoridades do governo Trump e de executivos de Nvidia, OpenAI e Anthropic no mesmo evento ilustra a dimensão política do tema. A regulação da inteligência artificial deixou de ser assunto restrito a especialistas em políticas públicas e tornou-se matéria de interesse comercial estratégico, com bilhões de dólares em jogo.
O desfecho do encontro importará para além dos Estados Unidos. Países membros do G20, entre eles o Brasil, acompanham as posições defendidas no evento enquanto elaboram ou aperfeiçoam seus próprios marcos regulatórios para a inteligência artificial, tema acompanhado de perto por profissionais de tecnologia, juristas e gestores.
O impasse entre prevenção ampla e intervenção pontual segue em aberto. O que ficou demonstrado em Chapel Hill é que as maiores empresas de inteligência artificial pretendem participar ativamente da definição das regras do jogo, e não apenas se adaptar a elas depois de aprovadas.