Ameaças digitais crescem no Brasil e expõem fragilidade na proteção de dados pessoais
Cerca de 45 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a 32% dos usuários de internet no país, declararam ter sido alvo de pelo menos uma tentativa de golpe que envolvia o uso indevido de seus dados pessoais. É o que revela a terceira edição da pesquisa "Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil", conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), órgão vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Do universo total de entrevistados, aproximadamente 27,5 milhões, ou 20% dos usuários de internet acima de 16 anos, afirmaram ter sido efetivamente vítimas desse tipo de crime.
A diferença entre os números se explica pelo tipo de experiência relatada. Os 45 milhões correspondem a pessoas que enfrentaram tentativas de fraude, enquanto os 27,5 milhões afirmaram ter consumado o golpe. De acordo com Winston Oyadomari, coordenador da pesquisa no Cetic.br, os criminosos nem sempre constroem abordagens personalizadas para cada vítima. Uma mensagem de texto que exibe um número falsificado de central telefônica, por exemplo, pode ser entendida pelo usuário como uso indevido de informação pessoal mesmo sendo parte de um disparo em massa. Segundo ele, basta a menção ao telefone ou a uma possível instituição financeira para que a pessoa identifique a tentativa como relacionada aos seus dados.
O levantamento também mapeou os principais meios utilizados pelos golpistas. Entre os que relataram ter sido abordados, os aplicativos de mensagem lideram com 84% das citações, seguidos pelas ligações telefônicas, mencionadas por 79%. Sites ou aplicativos falsos aparecem empatados com mensagens de SMS, ambos com 71%, enquanto e-mails foram citados por 69% e redes sociais por 67%. Para Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, a multiplicidade de canais reforça que os golpes envolvendo dados pessoais vão além do prejuízo financeiro e exigem ações amplas de prevenção, conscientização e proteção.
A pesquisa trouxe ainda um recorte inédito sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, como chatbots e assistentes baseados em modelos de linguagem. Entre os brasileiros que utilizam essas plataformas, 37% afirmam compartilhar dados como nome, endereço, data de nascimento e CPF. Outros dados pessoais aparecem com frequência ainda maior: 41% enviam informações financeiras, 50% compartilham fotos próprias ou de conhecidos, 52% relatam sintomas e exames de saúde, 54% descrevem sentimentos e emoções, 58% informam preferências de filmes e músicas, e 73% recorrem às ferramentas para tratar de assuntos profissionais ou acadêmicos.
Apesar do volume de informações fornecidas, a preocupação com o tratamento desses dados pelas empresas permanece alta. Segundo o estudo, 66% dos usuários de IA generativa se dizem preocupados ou muito preocupados com a forma como suas informações são utilizadas pelas plataformas. Outros 22% demonstram pouca preocupação, e 11% afirmam não se preocupar. O contraste entre a quantidade de dados compartilhados e o receio em relação ao uso feito pelas empresas evidencia uma tensão crescente no cotidiano digital dos brasileiros.
Os números também revelam um comportamento preocupante no campo da proteção ativa. Entre 2021 e 2025, diversas práticas de controle de dados perderam adesão no país. A leitura de políticas de privacidade em sites e aplicativos caiu de 68% para 65%. A verificação de indicadores de segurança em páginas, como o cadeado no navegador, passou de 70% para 63%. A recusa em permitir o uso de dados para publicidade personalizada recuou de 69% para 67%, enquanto a restrição de acesso à localização geográfica caiu de 62% para 57%. A limitação de acesso ao perfil em redes sociais diminuiu de 64% para 60%, e o pedido para que empresas e buscadores apagassem informações armazenadas sobre o usuário passou de 42% para 40%. A única prática da lista que registrou aumento foi a configuração ou limitação do uso de cookies, que subiu de 58% para 59%.
O conjunto de dados da pesquisa do Cetic.br retrata um cenário em que as tentativas de fraude se multiplicam, as plataformas de inteligência artificial ampliam o volume de informações pessoais em circulação e, ao mesmo tempo, diminui o cuidado dos próprios usuários com mecanismos básicos de defesa. O retrato sugere que o país precisa avançar tanto em educação digital quanto em políticas de proteção efetivas para reduzir a superfície de ataque disponível aos criminosos.