A oposição pública a novos data centers se tornou o risco mais imediato para o crescimento da inteligência artificial nos Estados Unidos, segundo relatório do veículo Axios. O tema, que reúne preocupações com contas de luz, consumo de água, grandes obras e medo de perda de empregos, já provoca rachaduras na direita norte-americana e começa a pesar em disputas eleitorais relevantes para o presidente Donald Trump.

Data centers são instalações físicas que concentram milhares de servidores e armazenam e processam os dados usados por sistemas de inteligência artificial. Sem eles, não há treinamento de modelos nem execução de aplicações em escala. É por isso que a infraestrutura física é considerada o motor da IA.

Rejeição a data centers de IA racha a direita e preocupa Trump - Imagem complementar

O levantamento da Axios descreve um efeito em cadeia: eleitores pressionam, políticos endurecem regras ou travam projetos, a construção desacelera e falta capacidade de computação para que as empresas sigam melhorando modelos e produtos. O gargalo deixa de ser apenas técnico ou financeiro e passa a ser político.

PUBLICIDADE

Um exemplo vem da Pensilvânia, onde o governador Josh Shapiro, do Partido Democrata, assinou uma ordem executiva com exigências mais duras para desenvolvedores. O político acusou "desenvolvedores predatórios" de tentar "intimidar autoridades locais" para aprovar projetos no estado.

A mudança de tom também alcançou território republicano. No Texas, o governador Greg Abbott, que antes celebrava o estado como "epicentro" da inteligência artificial, determinou que reguladores cobrem dos data centers o custo total da infraestrutura elétrica que exigem. Ele ainda pediu o fim gradual de incentivos fiscais e determinou auditorias antes da conexão de projetos à rede elétrica.

Abbott justificou a nova postura ao afirmar que "ganhar o apoio das pessoas nas comunidades locais é essencial" e afirmou que as empresas do setor "cavaram a própria cova" ao avançar rápido demais sem convencer a população. A declaração resume o problema central: mesmo com projetos legalmente aprovados, a pressão social pode travar a expansão.

Trump entrou no debate em defesa da expansão. O presidente afirmou que comunidades que rejeitam data centers "estão cometendo um erro", porque as instalações geram "muitos empregos e dinheiro". Ele também declarou que os empreendimentos estariam construindo suas próprias usinas de energia, embora parte dos projetos ainda dependa da rede elétrica pública.

O desgaste do tema já preocupa estrategistas republicanos. A Axios relata que a irritação de eleitores com data centers aflige o partido em uma disputa vital para Trump em Ohio, nas eleições para o Congresso de 2026. O cenário indica que a infraestrutura de IA pode se transformar em custo eleitoral em estados decisivos.

Até agora, a chamada guerra da IA era tratada como uma disputa de chips, energia e competição com a China. O novo gargalo é mais básico: a licença social para construir. A analogia é a de um shopping gigante erguido em um bairro sem diálogo com a vizinhança, uma obra que pode estar dentro da lei, mas encontrar resistência política.

O problema tem raiz também na comunicação do próprio setor. Em entrevista ao podcaster David Senra, Sam Altman, chefe da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, admitiu que a indústria fez um "trabalho terrível" ao explicar riscos e benefícios da tecnologia ao público. Ele criticou discursos do tipo "confiem na gente" e alertas vagos sobre perda de empregos.

Quando a população não enxerga benefício direto ou só ouve ameaças, a infraestrutura passa a ser percebida como custo, e não como ganho. Esse descolamento entre o discurso das empresas e a percepção das comunidades é o que transforma uma questão técnica em pauta de campanha.

Se a expansão da infraestrutura emperrar, a inteligência artificial não desaparece, mas tende a ficar mais cara e a avançar mais devagar. A construção de data centers é a base física sobre a qual os modelos são treinados e executados, e qualquer atraso se traduz em menos capacidade de computação disponível para o desenvolvimento.

O quadro também amplia a incerteza para empresas e investidores. Quando o tema entra no calendário eleitoral, as regras passam a mudar conforme o vento político, com exigências ambientais, tarifárias e fiscais diferentes em cada estado e município.

Para profissionais de tecnologia, o movimento nos Estados Unidos merece atenção porque define o ritmo de lançamento de novos modelos e serviços. Restrições à construção de infraestrutura afetam diretamente a capacidade de processamento disponível no mercado e podem encarecer o acesso a recursos de inteligência artificial.

O caso norte-americano mostra, por fim, que o futuro da IA não depende apenas de avanços em algoritmos ou semicondutores. Depende também da aceitação das comunidades onde essas megaestruturas são erguidas, um fator que agora decide eleições e divide até a base de apoio ao presidente.