IA no centro da estratégia: como o tempo de reação mudou para os bancos no combate a fraudes

A popularização de sistemas de pagamentos instantâneos, como o Pix, reduziu de forma significativa o intervalo entre uma transação e a conclusão da transferência, obrigando instituições financeiras a repensarem a maneira como combatem fraudes. Com transações que se completam em segundos, os bancos deixaram de operar apenas com análises posteriores e passaram a exigir decisões em tempo real, combinando dados, inteligência artificial, automação e monitoramento contínuo para decidir rapidamente se uma operação deve ser autorizada, passar por análise adicional ou ser bloqueada.

Corrida contra o tempo: como a IA se tornou a principal arma dos bancos contra fraudes na era do Pix - Imagem complementar

Esse novo cenário foi detalhado por Carlos Cruz, líder de Estratégia de Dados e Inteligência Artificial da IBM na América Latina, em entrevista ao Olhar Digital. Segundo o executivo, os bancos estavam habituados a utilizar tecnologias para se proteger de ataques que não aconteciam em tempo real, com sistemas gerando alertas depois que a operação já havia sido processada. O Pix mudou essa lógica ao comprimir a janela de reação das instituições, exigindo uma atuação preventiva e automatizada.

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A percepção dos executivos do setor financeiro sobre o papel da inteligência artificial aparece em uma pesquisa do IBM Institute for Business Value, realizada em parceria com a Oxford Economics. O levantamento, conduzido em maio de 2025, ouviu 100 executivos de bancos com responsabilidades em risco, compliance e validação nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Índia, Singapura e Alemanha. Os participantes foram divididos igualmente entre as funções de diretor de risco, diretor de compliance e diretor de validação. Do total, 61% apontaram a detecção de risco de fraude como a aplicação de IA com maior potencial de gerar valor para o negócio, seguida por cibersegurança, com 52%, e pelos processos de KYC (Know Your Customer, ou "Conheça seu Cliente") e AML (Anti-Money Laundering, ou "Prevenção à Lavagem de Dinheiro"), com 45%.

Para Cruz, um dos grandes desafios atuais é calibrar os alertas para que o sistema consiga capturar criminosos sem afetar o uso dos recursos por clientes legítimos. Ele lembra que, no passado, a inteligência artificial era usada principalmente como ferramenta de reação, gerando sinais após a ocorrência de eventos suspeitos. Hoje, as instituições combinam estratégias de dados, modelos de IA, automação inteligente e monitoramento transacional para acompanhar tanto o comportamento do cliente ao longo do tempo quanto o caminho percorrido por uma transação antes de sua conclusão.

A pesquisa também revela que a adoção da tecnologia exige mecanismos para validar modelos e controlar riscos. Enquanto 61% dos executivos apontam a validação como uma área crítica para investimentos em pessoas e habilidades, 46% fazem a mesma avaliação em relação ao controle de riscos. Entre as prioridades de risco e compliance para escalar o uso da IA em toda a empresa, 63% dos entrevistados consideram simulações de testes de estresse a principal, seguidos por 48% que destacam os controles de risco em tempo real. Apesar disso, apenas 25% dos profissionais afirmam aplicar de forma consistente o monitoramento em tempo real a casos de uso de IA de alto risco.

Conhecer bem o cliente tornou-se parte essencial da prevenção. Cruz explica que um dos principais desafios das instituições é consolidar informações para construir uma visão consistente da chamada entidade cliente, ou seja, ter clareza sobre quem é aquela pessoa para o banco. Esse conhecimento facilita a identificação de fraudes, de uso indevido de canais e de instrumentos de pagamento. O problema se torna mais complexo com o avanço do Open Finance, já que os dados financeiros de um mesmo cliente podem estar distribuídos em diferentes instituições, dificultando uma visão completa do comportamento financeiro.

Os processos de KYC e AML também aparecem no levantamento como os mais difíceis de transformar com inteligência artificial, segundo 43% dos executivos, à frente da detecção de fraude, com 36%, e de áreas como cibersegurança, crédito e precificação e compliance reporting, todas com 33%. Ao mesmo tempo, 45% dos entrevistados afirmam que a IA deve transformar significativamente os processos de KYC e AML, mostrando que, mesmo diante da dificuldade de implementação, há expectativa de impacto relevante.

A estratégia de combate a crimes financeiros não se resume a um único modelo de inteligência artificial. Cruz explica que diferentes tecnologias podem ser posicionadas de acordo com a função que precisam desempenhar. Em etapas de autorização em tempo real, recursos mais próximos da estatística e modelos determinísticos podem ser usados para avaliar padrões e decidir se uma operação pode ser autorizada. Já em atividades de investigação, outros tipos de modelos podem ser empregados. O executivo destaca que a IA generativa, por não ser determinística, apresenta respostas menos previsíveis, o que exige dos bancos um entendimento mais aprofundado sobre onde cada tecnologia se encaixa melhor na esteira de combate às fraudes.

Os criminosos também passaram a utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa para sofisticar ataques, incluindo a produção de deepfakes, simulações de voz e identidades sintéticas, inclusive em etapas como o cadastro de novos clientes. Além da tecnologia, Cruz aponta uma demanda crescente por profissionais capazes de combinar conhecimentos de fraude financeira, dados, tecnologia, legislação e operação, um perfil difícil de encontrar justamente por exigir domínio de áreas distintas. "Desde a parte de detecção até você tomar uma atitude, essa esteira tem que funcionar de forma integrada", afirmou o executivo, resumindo o desafio que os bancos enfrentam para equilibrar velocidade, precisão e segurança em um ambiente financeiro cada vez mais instantâneo.