Professores se tornam alvo de deepfakes sexuais criados por estudantes com inteligência artificial

A epidemia de deepfakes nas escolas, que ganhou força com a popularização de ferramentas de inteligência artificial generativa, está atingindo não apenas estudantes, mas também profissionais da educação. Quatro professores relataram à reportagem da WIRED terem se tornado alvo de imagens e vídeos de conteúdo sexualizado gerados por inteligência artificial, supostamente criados por seus próprios alunos. Os relatos mostram um cenário em que profissionais que dedicaram a carreira ao ensino enfrentam situações profundamente angustiantes, muitas vezes sem conseguir responsabilizar os autores ou remover o conteúdo das plataformas digitais.

Professores viram vítimas de deepfakes sexuais criados pelos próprios alunos: o pesadelo da IA nas salas de aula - Imagem complementar

Os deepfakes são mídias sintéticas — como fotos, vídeos ou áudios — criadas com técnicas de inteligência artificial que permitem manipular a aparência ou a voz de uma pessoa de forma hiper-realista. Nos casos relatados, essa tecnologia foi empregada para produzir conteúdo sexualizado dos professores, aparentemente por estudantes. De acordo com a reportagem, os docentes afirmam que os episódios foram profundamente decepcionantes e emocionalmente desgastantes. Em alguns casos, a experiência foi tão marcante que os levou a repensar a forma como enxergam a própria profissão e o vínculo com seus alunos.

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A reportagem da WIRED destaca que, na maioria dos casos, os professores não denunciaram diretamente o conteúdo às plataformas digitais nas quais as imagens circularam. Essa ausência de ação direta sugere tanto a falta de clareza sobre os procedimentos disponíveis quanto uma possível desconfiança em relação à eficácia desses canais de denúncia. A situação evidencia uma lacuna estrutural: enquanto as ferramentas de criação de deepfakes se tornam cada vez mais acessíveis ao público geral, os mecanismos de responsabilização e remoção de material abusivo não acompanham o mesmo ritmo de evolução.

A porta-voz do Snapchat, Monique Bellamy, apresentou à reportagem as políticas da empresa sobre assédio e conteúdo sexual, que proíbem o compartilhamento de imagens geradas ou manipuladas por inteligência artificial com o objetivo de humilhar ou assediar sexualmente outras pessoas. Bellamy afirmou que a companhia possui "processos estabelecidos" para a denúncia desse tipo de conteúdo e que continua a "desenvolver recursos e ferramentas voltados para a segurança" dos usuários. No entanto, a declaração genérica da empresa não traz detalhes concretos sobre a eficácia desses processos nem sobre casos específicos atendidos, deixando em aberto a questão sobre o quanto as grandes plataformas de comunicação realmente estão preparadas para lidar com o problema.

O caso dos professores se insere em um contexto mais amplo de abuso envolvendo deepfakes em ambientes escolares. Pesquisas anteriores já apontavam que, desde 2023, estudantes do ensino médio — em sua maioria meninos — em pelo menos 28 países foram acusados de utilizar inteligência artificial generativa para criar deepfakes sexuais de colegas de classe. Essas imagens explícitas envolvendo menores são classificadas como material de abuso sexual infantil, o que agrava ainda mais a gravidade do fenômeno. Os números revelam que o problema deixou de ser pontual e se tornou uma preocupação global.

A reportagem da WIRED sobre os quatro professores amplia a compreensão do impacto dessa onda de abuso digital ao mostrar que os profissionais da educação também estão expostos a esse tipo de violência. A dificuldade em encontrar responsabilização, seja por parte das plataformas digitais, das instituições de ensino ou do sistema jurídico, levanta questões urgentes sobre os limites da legislação vigente e a responsabilidade das empresas de tecnologia diante do uso malicioso de suas ferramentas de inteligência artificial. Para os educadores ouvidos pela reportagem, a experiência serviu como um alerta doloroso sobre as consequências imprevisíveis da popularização dessas tecnologias no cotidiano das escolas.