A TV Globo virou alvo de uma onda de críticas nas redes sociais depois de exibir, no Mais Você, programa matinal apresentado por Ana Maria Braga, um vídeo criado com inteligência artificial para homenagear as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, falecidas na mesma semana. A imagem simulava um encontro celestial entre as duas veteranas da televisão brasileira e pretendia prestar uma homenagem emotiva, mas provocou o efeito contrário: rejeição do público e um debate aceso sobre os limites éticos do uso de ferramentas de IA generativa na mídia.

As duas atrizes ocupam lugar central na história da dramaturgia brasileira, e a coincidência das mortes em um intervalo de poucos dias comoveu o país. Foi nesse contexto que a emissora recorreu à inteligência artificial para construir uma cena de reencontro entre elas. O resultado foi classificado por internautas como desrespeitoso, tosco e desumano. A frase “elas mereciam mais” se repetiu nos comentários e resumiu a insatisfação de parte do público com a escolha estética da produção.

Homenagem com IA a Laura Cardoso e Glória Menezes gera críticas - Imagem complementar

Um desdobramento inesperado ampliou a repercussão do episódio. Parte dos telespectadores não reconheceu na imagem sintética o rosto de Glória Menezes e chegou a confundi-la com a atriz Fafy Siqueira. O erro de identificação levou alguns internautas a acreditar, de forma equivocada, que Fafy também teria morrido. O problema expôs na prática uma limitação conhecida das ferramentas de geração de imagem: a semelhança facial ainda é inconsistente, sobretudo quando o sistema tenta reproduzir pessoas reais em cenas que nunca existiram.

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A confusão se espalhou rapidamente e o caso alcançou a imprensa de entretenimento no Brasil e no exterior. Entre as vozes críticas esteve a apresentadora Sonia Abrão, que se somou a colegas de profissão na condenação pública do recurso. Com isso, o episódio deixou de ser uma polêmica isolada de audiência e passou a ser tratado como mais um capítulo da discussão sobre deepfakes e sobre o uso da imagem de personalidades falecidas.

Deepfake é o nome dado a vídeos, imagens ou áudios sintéticos criados por inteligência artificial que imitam a aparência ou a voz de pessoas reais. A técnica integra o conjunto de recursos da chamada IA generativa, sistemas capazes de produzir conteúdo novo a partir de comandos em texto ou em linguagem natural. Embora tenha aplicações legítimas na produção audiovisual, o uso em contextos sensíveis, como homenagens póstumas, tem sido questionado por profissionais de comunicação e por especialistas em ética.

No caso do Mais Você, a crítica central do público não foi a tecnologia em si, mas a decisão de aplicá-la a figuras recém-falecidas. Para muitos internautas, a cena sintética teria substituído a possibilidade de uma despedida ancorada em imagens reais, em arquivos de arquivo histórico e na memória da trajetória das atrizes. A percepção de artificialidade, somada à falha na semelhança de Glória Menezes, reforçou o estranhamento diante de uma figura que o público conheceu por décadas em trabalho autêntico.

O episódio também reacende a discussão sobre consentimento no uso póstumo de imagens. Enquanto atores vivos podem autorizar ou vetar a manipulação de sua aparência, personalidades falecidas dependem de decisões de terceiros, sejam familiares, sejam emissoras. Quando quem decide é a própria empresa que produz a homenagem, a fronteira entre tributo e aproveitamento comercial da imagem fica menos clara aos olhos do público.

Outro ponto levantado no debate é o padrão de responsabilidade esperado de grandes emissoras. Diferentemente de criadores independentes que publicam experimentos com IA em redes sociais, uma rede de televisão com alcance nacional opera com equipes de produção, revisão e curadoria editorial. A expectativa do público, expressa nas críticas, é que esse nível de estrutura se traduza em critérios mais rigorosos sobre quando a tecnologia é adequada e quando imagens reais, arquivos e depoimentos cumprem melhor o papel da homenagem.

A confusão envolvendo Fafy Siqueira adiciona uma camada de alerta específica sobre desinformação. A geração de imagens de pessoas reais em contextos fictícios pode criar falsas percepções, especialmente quando o material circula descontextualizado, em capturas de tela e clipes curtos. No caso, a vítima foi uma atriz viva que precisou ver seu nome associado, equivocadamente, a uma morte que não ocorreu.

O caso chega em um momento de expansão acelerada do uso de inteligência artificial na televisão brasileira e no mercado audiovisual global. Recursos de geração de imagem, clonagem de voz e reconstituição digital de cenários já são empregados em novelas, publicidade e produções documentais. A controvérsia envolvendo Laura Cardoso e Glória Menezes demonstra, porém, que a aceitação do público varia conforme o contexto, o tema e a figura representada.

Para o setor de tecnologia e mídia, o episódio reforça a necessidade de protocolos internos claros: avaliar o consentimento familiar, comunicar com transparência que o conteúdo foi gerado por IA e testar a fidelidade da representação antes da exibição. Falhas simples de semelhança, como a observada na cena, têm potencial de transformar uma homenagem em fonte de dor adicional para familiares, colegas e fãs.

A reação adversa à homenagem do Mais Você tende a servir de referência para decisões futuras de emissoras e produtoras. O público brasileiro sinalizou que a memória de figuras públicas queridas está ligada à autenticidade de sua trajetória registrada em imagens reais, e que a substituição por representação sintética, ainda que bem intencionada, pode ser recebida como desrespeito.

Enquanto o debate sobre IA generativa avança no país, o caso de Laura Cardoso e Glória Menezes ilustra o lado humano da discussão: a tecnologia pode reproduzir rostos e vozes, mas ainda não conta com respaldo social para simular afeto, luto e memória. O custo simbólico de errar nesse terreno, como a Globo constatou, é alto e imediato.