Mais da metade dos pequenos negócios brasileiros já utiliza inteligência artificial de alguma forma no dia a dia, segundo pesquisa divulgada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), entidade pública de fomento ao empreendedorismo. O dado confirma que a tecnologia deixou de ser exclusividade de grandes corporações e passou a integrar a rotina operacional de microempreendedores, microempresas e empresas de pequeno porte em todo o país.

O levantamento ouviu 7.182 pessoas entre 24 de março e 8 de maio. No total, 52% dos pequenos negócios relataram uso de IA nas duas semanas anteriores à entrevista. Os principais campos de aplicação são marketing, atendimento ao cliente e gestão de estoques.

Mais da metade dos pequenos negócios já usa IA, mostra Sebrae - Imagem complementar

A amostra abrangeu os três perfis de empresa atendidos pelo Sebrae: microempreendedores individuais (MEI), com faturamento anual de até R$ 81 mil, microempresas (ME), com receita de até R$ 360 mil por ano, e empresas de pequeno porte (EPP), que faturam entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões anuais. Segundo o presidente da entidade, Rodrigo Soares, a tecnologia é adotada sobretudo para reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas.

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Para Soares, a IA é vista, no universo dos pequenos negócios, como uma das principais ferramentas para elevar a produtividade e acelerar a transformação digital da economia brasileira. Em sua avaliação, a automação de rotinas libera o empreendedor para se dedicar a questões estratégicas que exigem atenção e acompanhamento pessoal.

A disseminação da tecnologia varia conforme o setor. No de serviços, 62% dos entrevistados fazem uso de IA, índice que Soares atribui ao alto volume de interações digitais e a rotinas operacionais que se adaptam bem aos modelos de linguagem, sistemas capazes de gerar e interpretar texto, e a recursos de automação. O comércio aparece na sequência, com 45% de adoção, impulsionado por vendas digitais e por ferramentas de recomendação e atendimento. Na indústria, 33% dos negócios usam a tecnologia em frentes como controle de produção.

Até agora, a adoção da IA tem efeito limitado sobre o emprego dentro dos pequenos negócios. Entre os entrevistados que utilizam a tecnologia, 90% afirmaram não ter reduzido o quadro de funcionários por causa dela. Outros 5% cortaram postos em razão da IA, enquanto 3% contrataram mais pessoas.

A leitura do Sebrae é que o movimento tende a mudar o perfil das vagas, e não a eliminar postos em massa. Soares afirma que a tecnologia deve assumir tarefas mecânicas e burocráticas e que a demanda por trabalhadores com competências operacionais integradas a ferramentas digitais tende a aumentar. Ele destaca ainda que os novos postos devem exigir mais análise crítica e relacionamento pessoal do que os atuais.

A pesquisa indica ainda espaço para expansão. Entre MEI, ME e EPP, 60% pretendem começar a usar ou ampliar a adoção da IA nos seis meses seguintes ao levantamento. O principal obstáculo para um avanço mais rápido é o desconhecimento sobre os possíveis ganhos: entre os proprietários que não planejam adotar a tecnologia nesse período, 38% justificam a decisão pela falta de conhecimento sobre as capacidades da IA.

Casos práticos ilustram o uso cotidiano da ferramenta. Eduardo Prado, proprietário da empresa de transporte de passageiros SP Drive, administra o negócio com apoio de IA desde 2023. Ele conta que planilhas criadas pela tecnologia permitem planejar revisões preventivas dos veículos. O empresário também identifica ganhos de produtividade na elaboração de contratos, em ações de marketing, em análises de despesas e no atendimento a clientes, inclusive estrangeiros.

O poder público também atua no tema. Soares destaca o apoio do governo por meio da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada em 2023 e conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). O incentivo se materializa em financiamento e em parcerias com o próprio Sebrae voltadas à capacitação dos pequenos negócios.

O Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Memp) afirma ver a IA como oportunidade para aumentar a produtividade, reduzir custos, melhorar a gestão e ampliar a competitividade dos pequenos negócios. Para a pasta, o principal desafio é democratizar o acesso e o conhecimento sobre essas ferramentas, de modo que a tecnologia não fique restrita às empresas maiores. Em 2024, por meio de instrução normativa, o Memp autorizou juntas comerciais a usarem mecanismos de IA para otimizar a análise de documentos de registro empresarial. Procurado, o Mdic não respondeu.

A dimensão dos ganhos de produtividade ainda é objeto de debate entre economistas. Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que estudos internacionais mostram impactos incertos da IA sobre a produtividade do trabalho. Ele cita trabalho de Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2024, que calcula efeito pouco acima de zero em termos anuais. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta impacto positivo entre 0,5% e 1%, enquanto a consultoria McKinsey estima ganho de até 3,5%.

No mercado de trabalho, Barbosa Filho aponta que ocupações mais complexas tendem a ser menos impactadas. Ele compara os casos de um vendedor e de um caminhoneiro: o cargo do vendedor normalmente exige mais habilidades e, portanto, tem menos chances de ser substituído pela tecnologia.

O conjunto de dados do Sebrae desenha um cenário de adoção consolidada e em expansão da IA na base da economia brasileira, com efeitos ainda moderados sobre o emprego. O gargalo identificado é a capacitação, já que a maior barreira apontada pelos empreendedores não é o custo da tecnologia, mas o desconhecimento sobre o que ela pode entregar.

Se a tendência se confirmar, o desafio nos próximos meses será transformar acesso amplo em uso qualificado, com profissionais preparados para operar ferramentas digitais combinadas a habilidades de análise e relacionamento. É esse equilíbrio, segundo os entrevistados, que determinará o real alcance da inteligência artificial na produtividade dos pequenos negócios do país.