Amazon está comprando e destruindo livros raros para treinar modelos de inteligência artificial
A Amazon, empresa que se consolidou no mercado global a partir da venda de livros online, está adquirindo grandes quantidades de livros raros, escaneando seu conteúdo para treinar modelos de inteligência artificial e, em seguida, destruindo os exemplares físicos. A prática foi confirmada após um rastreamento que acompanhou um carregamento de obras raras até uma instalação da empresa dedicada ao processamento de material para treinamento de IA.
De acordo com informações da matéria original, a Amazon confirmou a atividade por meio de um comunicado oficial, no qual afirmou que compra livros por canais comerciais com o objetivo de desenvolver e aprimorar os produtos e serviços oferecidos aos seus clientes. A empresa não detalhou publicamente os volumes adquiridos nem os critérios utilizados para selecionar os títulos.
O interesse por livros raros por parte de empresas de inteligência artificial está diretamente ligado à busca por dados de alta qualidade para treinar grandes modelos de linguagem, conhecidos como LLMs. Esses sistemas, que são a base de assistentes e ferramentas generativas, precisam ser alimentados com enormes volumes de texto durante a fase de aprendizado. Como os modelos já consumiram praticamente todo o conteúdo disponível gratuitamente na internet, as empresas passaram a procurar fontes alternativas de material textual.
Livros raros e esgotados se tornaram especialmente valiosos justamente por não estarem amplamente disponíveis online. Essas obras contêm textos escritos por humanos, com linguagem rica e diversidade estilística, características altamente desejáveis para o treinamento de modelos de linguagem. Além disso, por se tratarem de publicações anteriores à proliferação de conteúdo gerado por inteligência artificial na internet, oferecem um tipo de dado considerado mais confiável para o processo de aprendizado das máquinas.
O processo de aproveitamento dos livros envolve a chamada digitalização destrutiva, técnica na qual as obras são cortadas para que suas páginas possam ser alimentadas em scanners de alta velocidade. Após a captura do conteúdo textual, os exemplares físicos são descartados. Essa prática tem gerado preocupação entre livreiros, colecionadores e pesquisadores, que alertam para a perda irreversível de acervos históricos e culturais únicos.
A questão ganhou repercussão depois que um processo judicial envolvendo outra empresa de inteligência artificial revelou a aquisição e destruição de milhões de livros impressos para treinamento de modelos. O caso expôs a escala da operação e levantou debates sobre os limites éticos e legais do uso de obras físicas como matéria-prima para o desenvolvimento de inteligência artificial.
No caso da Amazon, a reportagem que rastreou o carregamento de livros raros identificou que o destino do material foi uma instalação da empresa dedicada à digitalização de obras para treinamento de IA. O rastreamento foi feito com o auxílio de um dispositivo de localização inserido na remessa, o que permitiu confirmar o percurso dos livros até o local de processamento e descarte.
O episódio evidencia um dilema crescente no setor de inteligência artificial: a necessidade constante de novos dados para melhorar o desempenho dos modelos colide com a preservação de patrimônio editorial e cultural. Enquanto as empresas argumentam que a digitalização contribui para a evolução tecnológica, críticos afirmam que a destruição de exemplares raros representa uma perda irreparável, especialmente no caso de obras que existem em pouquíssimos exemplares pelo mundo.
A discussão também coloca em evidência o papel de empresas que historicamente tiveram no livro um de seus principais produtos. A Amazon, que começou como uma livraria online, agora aparece no centro de uma cadeia de suprimentos voltada para a destruição controlada de obras raras em nome do avanço da inteligência artificial, evidenciando como a busca por dados de treinamento vem transformando práticas corporativas e levantando novos desafios para a preservação da memória escrita.