O lado perverso da inteligência artificial: como a tecnologia barateou e sofisticou o cibercrime

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa de transformação para os negócios e passou a ocupar também o lado oposto da equação, alimentando uma nova geração de crimes digitais cada vez mais acessíveis e refinados. Segundo especialistas das empresas Unico e Kaspersky, ouvidos durante o evento SP2B, o custo de um ataque cibernético sofisticado caiu mais de cem vezes nos últimos três anos com o uso da IA, enquanto as estratégias dos criminosos se tornam mais elaboradas e difíceis de detectar.

Cibercrime na Era da Inteligência Artificial: O Novo Desafio para a Segurança Digital - Imagem complementar

Um dos efeitos mais visíveis dessa mudança é a democratização do cibercrime, fenômeno que se traduz na redução drástica do investimento necessário para executar golpes de alta complexidade. De acordo com um levantamento da Unico, o custo de um ataque desse tipo caiu de cerca de cinco mil reais em hardware, em 2023, para menos de trinta reais mensais atualmente. A queda expressiva mostra que barreiras técnicas que antes restringiam o acesso a ataques sofisticados foram praticamente eliminadas, abrindo espaço para um número muito maior de criminosos digitais em circulação.

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A sofisticação dos ataques, por sua vez, já é uma realidade mensurável. Segundo a Unico, 23% dos ataques globais registrados são considerados de alta sofisticação, com uso de táticas como deepfakes, que são mídias sintéticas geradas por inteligência artificial para reproduzir imagens, vozes e vídeos de pessoas reais. Na América Latina, o índice é ainda mais alarmante e chega a 50%, evidenciando a concentração de incidentes na região. No Brasil, o estado de São Paulo responde sozinho por 22% desses episódios, o que reforça a necessidade de atenção redobrada por parte de empresas e órgãos de segurança.

O volume de informações pessoais disponíveis em ambiente digital, que vai de fotos em redes sociais a dados cadastrais em diversos serviços, é apontado como um dos fatores que viabilizam essa nova onda de ataques. Os criminosos utilizam esse repertório para treinar modelos de IA capazes de imitar vozes, rostos e até comportamentos de vítimas. Executivos presentes ao evento relataram que já há casos de cibercriminosos que, a partir de deepfakes, conseguiram participar e avançar em processos seletivos de empresas, driblando entrevistas e etapas de recrutamento.

Esse cenário impõe desafios inéditos para equipes de cibersegurança e para os mecanismos tradicionais de verificação de identidade. Se por um lado a IA torna os ataques mais baratos e acessíveis, por outro ela amplia a complexidade das defesas necessárias, já que as ferramentas usadas pelos criminosos evoluem com rapidez e conseguem se adaptar a diferentes contextos. As deepfakes, em particular, exigem tecnologias capazes de distinguir com precisão o que é uma imagem autêntica e o que foi gerado artificialmente.

O alerta dos especialistas reforça que a corrida entre atacantes e defensores ganhou uma nova dimensão com a popularização da inteligência artificial. Estratégias defensivas baseadas apenas em métodos convencionais já não conseguem acompanhar a velocidade com que novos golpes surgem, o que torna urgente a incorporação de soluções igualmente baseadas em IA para monitorar transações, validar identidades e identificar padrões de comportamento suspeito.

No fim das contas, o avanço da inteligência artificial dentro do cibercrime evidencia que a mesma tecnologia capaz de impulsionar inovações em empresas de todos os setores também está sendo apropriada por organizações criminosas para ampliar sua capacidade de atuação. A queda expressiva no custo dos ataques e o aumento da sofisticação das estratégias criam um cenário em que a prevenção deixou de ser um diferencial e passou a ser uma condição básica para qualquer negócio que lide com dados sensíveis ou transações digitais.