Um estudo da consultoria de pesquisa Gartner, finalizado em dezembro de 2025 e divulgado recentemente, revela que 22% das lideranças globais de recursos humanos relatam que pelo menos uma chefia dentro de suas organizações deixou de contratar candidatos para cargos de nível inicial em razão da automação proporcionada pela inteligência artificial. O levantamento ouviu 110 diretores de recursos humanos de empresas globais e oferece uma das primeiras evidências quantitativas de que a adoção da IA está começando a alterar a composição das equipes nas corporações, com efeitos diretos sobre profissionais em início de carreira e recém-formados.

A Gartner, empresa norte-americana especializada em pesquisa e consultoria tecnológica, é uma das referências mais citadas em relatórios sobre tendências corporativas no mundo. O levantamento foi conduzido ao longo de 2025 e captura o momento em que ferramentas de inteligência artificial passaram a ser incorporadas de maneira mais sistemática aos processos produtivos das empresas.

IA já reduz contratações de cargos de entrada em 22% das empresas - Imagem complementar

Os dados mostram que 95% das organizações participantes da pesquisa implementaram a IA de alguma forma ao longo de 2025. A aplicação mais frequente ocorreu em tarefas descritas como menos complexas, que tradicionalmente são atribuídas a profissionais juniores. Esse recorte é relevante porque indica que os sistemas automatizados estão sendo direcionados justamente às atividades que servem de porta de entrada para novos colaboradores no mercado de trabalho.

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A pesquisa não detalha quais setores específicos foram mais afetados, mas a categorização de tarefas menos complexas abrange rotinas administrativas, triagem de documentos, atendimento inicial ao cliente, organização de dados e outras funções repetitivas que, historicamente, funcionavam como ambiente de aprendizado para estagiários e trainees.

O percentual de 22%, embora possa parecer modesto em uma primeira leitura, ganha outra dimensão quando considerado no contexto global. Significa que aproximadamente uma em cada cinco organizações de grande porte já identificou ao menos uma área em que a substituição de trabalho humano por sistemas automatizados se traduziu na eliminação de vagas de nível inicial. Para profissionais recém-formados, esse movimento representa um estreitamento do mercado em um momento em que a competição por oportunidades já é intensa.

Especialistas em recursos humanos no Brasil têm sugerido a necessidade de novas abordagens para lidar com o impacto da inteligência artificial sobre o trabalho de funcionários em início de carreira. A preocupação não se restringe à redução de vagas, mas também envolve a redefinição do que significa a primeira experiência profissional em um ambiente cada vez mais automatizado.

Um dos desafios apontados por esses especialistas refere-se ao desenvolvimento de competências. Se as tarefas básicas passam a ser executadas por sistemas de IA, os cargos de entrada tendem a exigir habilidades mais sofisticadas desde o primeiro dia. Isso cria uma expectativa de que os profissionais cheguem às empresas já com conhecimento técnico avançado, o que pode penalizar quem não teve acesso a formação de qualidade ou a ferramentas de inteligência artificial durante a graduação.

Paralelamente à redução de contratações de nível inicial, dados recentes do mercado brasileiro indicam um movimento complementar. Vagas que exigem habilidades relacionadas à inteligência artificial saltaram para cerca de 182 mil em 2025, quase o triplo em comparação ao período anterior. Esse crescimento sugere que, ao mesmo tempo em que a IA elimina funções de baixa complexidade, cria demanda por profissionais qualificados para desenvolver, implementar e gerenciar essas tecnologias.

A contradição entre a redução de oportunidades para iniciantes e o aumento da procura por especialistas em IA evidencia uma transição no perfil do trabalhador demandado pelo mercado. As empresas parecem estar priorizando a contratação de profissionais que já dominam tecnologias emergentes em detrimento daqueles que ainda precisam ser treinados.

Para os profissionais em início de carreira, a mensagem do estudo é clara: a familiaridade com ferramentas de inteligência artificial deixou de ser um diferencial e passou a ser um requisito. A capacidade de trabalhar em conjunto com sistemas automatizados, interpretar resultados gerados por algoritmos e contribuir para o aprimoramento dessas ferramentas tende a se tornar uma habilidade fundamental.

O levantamento da Gartner levanta ainda uma questão estrutural que tende a ganhar mais atenção nos próximos anos. Se as empresas reduzem a contratação de profissionais juniores, como formar a próxima geração de líderes e especialistas? As organizações que cortam vagas de entrada podem enfrentar, no médio prazo, uma escassez de talentos internamente preparados para assumir posições de maior responsabilidade.

A pesquisa não projeta cenários futuros nem quantifica o impacto total sobre o mercado de trabalho. Os 22% identificados representam o que já foi observado até dezembro de 2025. Com a evolução contínua das ferramentas de inteligência artificial e a queda nos custos de implementação, é provável que esse percentual aumente nos próximos levantamentos.

O estudo da Gartner confirma, com dados concretos, uma tendência que vinha sendo discutida de forma especulativa. A inteligência artificial não está apenas transformando a maneira como o trabalho é executado, mas também redefinindo quem é contratado e para quais funções. Para profissionais e organizações, a adaptação a essa nova realidade deixou de ser uma escolha e se tornou uma necessidade.