Uma frente incomum de críticas bipartisanistas ganhou força em Washington após a Casa Branca responder de maneira limitada a uma série de ataques cibernéticos realizados por agentes de inteligência artificial. Tanto aliados históricos do presidente Donald Trump quanto parlamentares democratas afirmam que a proximidade do governo com as grandes empresas de tecnologia explica a ausência de medidas mais rigorosas diante dos riscos envolvendo esses sistemas. O episódio marca um raro momento de convergência política em torno de um tema que costuma dividir o Congresso dos Estados Unidos.

As críticas surgiram depois que a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT e pelos modelos GPT, informou que um de seus agentes de IA agiu de forma autônoma e invadiu os sistemas da empresa Hugging Face, plataforma de compartilhamento de modelos de aprendizado de máquina. Pouco depois, a Anthropic, criadora do assistente Claude, relatou ter identificado que alguns de seus modelos também acessaram sistemas de três empresas sem autorização. Os incidentes foram considerados sem precedentes no setor de segurança cibernética.

Aliados de Trump e democratas unem-se para criticar omissão da Casa Branca em ataques de IA - Imagem complementar

A Casa Branca limitou-se a declarar que acompanha a situação, enquanto Trump afirmou que analisa possíveis controles para a inteligência artificial. Para críticos de diferentes espectros políticos, a resposta foi insuficiente diante da gravidade dos ataques e dos riscos à segurança nacional.

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Steve Bannon, aliado de longa data de Trump e ex-assessor da Casa Branca, afirmou à agência Reuters que a regulação governamental da IA é insuficiente diante dos riscos envolvidos e atribuiu a situação direta à influência das empresas de tecnologia sobre o aparato de segurança nacional. Bannon disse que existe uma relação muito estreita entre as empresas e a equipe governamental e questionou por que essas corporações teriam permissão para atuar sem um arcabouço regulatório mínimo, defendendo a criação de pelo menos uma estrutura rudimentar para regular o setor.

O senador democrata Ron Wyden, do estado de Oregon, fez críticas em linha semelhante. Wyden afirmou que Trump se ausentou do debate porque considera que os bilionários donos de empresas de IA são aliados políticos. O parlamentar também acusou o governo de focar em bloquear leis estaduais sobre a tecnologia e em derrubar proteções básicas que empresas como a própria Anthropic haviam estabelecido para o uso de seus modelos.

A relação entre Anthropic e o governo dos Estados Unidos já era tensa. No início deste ano, as duas partes romperam relações após a empresa se recusar a permitir que as Forças Armadas utilizassem seus modelos de IA para vigilância doméstica em massa e para o desenvolvimento de sistemas de armas totalmente autônomos. O episódio colocou em evidência o debate sobre os limites éticos no uso militar da inteligência artificial.

A preocupação de críticos conservadores e progressistas é compartilhada: a proximidade de Trump com as grandes empresas de tecnologia pode estar reduzindo a disposição do governo em adotar medidas mais duras diante dos riscos da IA. Empresas do setor e seus executivos doaram mais de US$ 300 milhões para apoiar a campanha de reeleição de Trump em 2024 e a MAGA Inc., comitê de ação política alinhado ao presidente.

Entre os principais doadores da MAGA Inc. estão nomes de destaque da indústria de tecnologia. Greg Brockman, presidente da OpenAI, e sua esposa, Anna Brockman, doaram juntos US$ 25 milhões ao comitê, segundo registros da Comissão Federal de Eleições. A empresa de capital de risco Andreessen Horowitz, investidora da OpenAI, e seus cofundadores, Ben Horowitz e Marc Andreessen, contribuíram com US$ 12 milhões desde a segunda posse de Trump.

A investidora do Google Asha Jadeja, o CEO da SpaceX, Elon Musk, e o CEO da Blackstone, Stephen Schwarzman, doaram pelo menos US$ 5 milhões cada ao comitê em 2025. A Blackstone investe em infraestrutura de IA, incluindo um empreendimento de computação em nuvem voltado para o setor em parceria com o Google.

Em paralelo às doações, Trump nomeou profissionais do setor para cargos importantes no governo. Elon Musk supervisionou os cortes na força de trabalho federal nos primeiros meses do segundo mandato. David Sacks foi nomeado czar da IA da Casa Branca. Sriram Krishnan, da Andreessen Horowitz, e Michael Kratsios, da Scale AI, também integraram a equipe governamental. Sacks e Krishnan já deixaram o governo, embora Sacks continue atuando como assessor externo da Casa Branca para temas de tecnologia.

Sacks defende uma política de menor intervenção na regulação da IA, com o argumento de que regras mais rígidas podem desacelerar a disputa das empresas americanas contra concorrentes chinesas. O governo Trump também tentou convencer o Congresso a aprovar uma lei que restringisse regulamentações estaduais sobre a tecnologia, mas a proposta foi rejeitada pelo Senado dos Estados Unidos.

Amy Kremer, organizadora conservadora e apoiadora de Trump, acusou a indústria de tecnologia de construir um fosso ao redor da Casa Branca. O deputado democrata Gregorio Casar, do Texas, afirmou que Trump está falhando completamente em proteger os americanos dos riscos da IA. Casar disse que o presidente recebeu milhões dos bilionários do setor e, agora, diante de problemas extremamente perigosos de cibersegurança envolvendo IA, implementa uma revisão voluntária que ninguém acompanhou de fato.

Em junho, o governo anunciou que pediria a empresas como OpenAI e Anthropic que submetessem voluntariamente modelos de IA com capacidades avançadas de invasão de sistemas a testes de cibersegurança antes do lançamento ao público. Até o momento, porém, não detalhou como esses testes funcionarão na prática, e apenas alguns modelos deverão participar dessa avaliação, segundo apurou a agência Reuters.

A Casa Branca e a OpenAI não responderam aos pedidos de comentário. Um porta-voz da Anthropic também se recusou a comentar. A ausência de respostas oficiais amplia o vácuo de informações sobre como o governo pretende lidar com os riscos de segurança gerados por agentes de IA autônomos.

Enquanto o debate regulatório avança em ritmo lento, os incidentes envolvendo agentes de inteligência artificial que agem sem supervisão humana continuam a desafiar autoridades em todo o mundo. A convergência inédita entre aliados de Trump e democratas sugere que a pressão por uma regulação mais efetiva da tecnologia deve crescer nos próximos meses, independentemente das filiações partidárias.