A consultoria de investimentos Decade, que utiliza inteligência artificial para gestão de patrimônio e finanças pessoais, anunciou o encerramento de uma captação de US$ 85 milhões, equivalente a cerca de R$ 440 milhões, em sua rodada inicial de investimentos. O valor representa o maior volume já levantado por uma startup na fase seed em toda a América Latina, segundo a própria empresa. A rodada contou com a participação de fundos de destaque no universo da inovação e marca um marco histórico para o ecossistema brasileiro de startups.

À frente do projeto estão profissionais com trajetória relevante no setor de tecnologia financeira. Vitor Olivier, ex-executivo-chefe de tecnologia do Nubank — um dos principais bancos digitais da América Latina —, é um dos fundadores da empresa. Olivier participou da construção da infraestrutura tecnológica que sustentou o crescimento acelerado do Nubank, que hoje atende dezenas de milhões de clientes no Brasil e em outros países.

Decade, startup de IA para investimentos, capta US$ 85 mi em rodada seed - Imagem complementar

O cofundador Felipe Meneses traz experiência complementar no campo da inteligência artificial aplicada ao setor financeiro. Meneses foi fundador da Hyperplane, empresa especializada em soluções de IA para crédito e que foi adquirida pelo Nubank. A trajetória de ambos os fundadores no banco digital cria uma ligação direta entre a nova empreitada e uma das histórias de maior sucesso do empreendedorismo brasileiro.

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A proposta da Decade é utilizar inteligência artificial para transformar a forma como indivíduos gerenciam seu patrimônio e tomam decisões financeiras. A empresa promete democratizar o acesso a tecnologias e estratégias de investimento que, historicamente, estiveram restritas a grandes fortunas e a clientes de bancos privados com serviços de gestão patrimonial exclusivos, conhecidos como wealth management.

O modelo de negócio da Decade parte de uma premissa simples: usar algoritmos e modelos de aprendizado de máquina para analisar perfis de risco, objetivos financeiros e cenários macroeconômicos, oferecendo recomendações personalizadas a cada investidor. Em vez de depender exclusivamente de consultores humanos, a plataforma combina automação inteligente com conhecimento financeiro para entregar orientação em escala.

A captação de US$ 85 milhões em uma fase tão inicial é um sinal relevante do apetite dos investidores por empresas que unem tecnologia de inteligência artificial e serviços financeiros no Brasil. O volume ultrapassa com folga os valores típicos de rodadas seed no país, que costumam variar entre alguns centenos de milhares e poucos milhões de dólares. A magnitude do investimento inicial sugere que os fundos participantes enxergam potencial de crescimento rápido e disrupção real em um mercado tradicionalmente dominado por instituições consolidadas.

O mercado de consultoria de investimentos no Brasil tem passado por transformações significativas nos últimos anos. A popularização de plataformas digitais, a queda progressiva das taxas de administração de fundos e o aumento do número de investidores pessoa física na bolsa de valores criaram um ambiente propício para novas propostas. A entrada de uma empresa com perfil tecnológico forte e respaldo financeiro expressivo pode acelerar essa mudança.

A presença de ex-executivos do Nubank no comando da Decade também carrega peso simbólico. O Nubank é frequentemente citado como referência de como a tecnologia pode redesenhar serviços financeiros antes monopolizados por grandes bancos tradicionais. Ao aplicar princípios semelhantes de simplicidade, eficiência tecnológica e foco no cliente ao segmento de gestão de investimentos, a Decade busca repetir em outra vertente do mercado financeiro o tipo de disrupção que o banco digital promoveu no setor de conta corrente e cartões de crédito.

A escolha pela inteligência artificial como núcleo do produto reflete uma tendência mais ampla do setor. Gestores de patrimônio e consultoras tradicionais já utilizam ferramentas analíticas há anos, mas o uso de modelos avançados de aprendizado de máquina para personalizar estratégias em larga escala ainda é incipiente no Brasil. A Decade pretende ocupar esse espaço ao oferecer uma plataforma capaz de processar grandes volumes de dados e gerar recomendações adaptadas a cada perfil de investidor.

A rodada seed recorde também coloca a Decade em uma posição privilegiada em termos de capital disponível para execução. Com US$ 85 milhões em caixa antes mesmo do início formal das operações, a empresa tem fôlego para investir em desenvolvimento de tecnologia, contratação de especialistas em finanças e engenharia de dados, além de estratégias de aquisição de clientes.

O fato de a captação ter ocorrido em meio a um cenário de maior seletividade por parte dos investidores de risco, especialmente para empresas em estágio inicial, torna o resultado ainda mais expressivo. Fundos de venture capital globalmente passaram a exigir métricas mais sólidas e times com trajetória comprovada antes de comprometer volumes elevados em rodadas seed.

A Decade inicia operações em um momento de expansão do uso de inteligência artificial no setor financeiro brasileiro. Bancos, corretoras e fintechs já adotam modelos de IA em áreas como concessão de crédito, prevenção a fraudes e atendimento ao cliente. A aplicação dessa tecnologia na consultoria de investimentos, contudo, ainda representa uma fronteira com espaço significativo para inovação. A capacidade da empresa de cumprir sua promessa de democratizar acesso a ferramentas sofisticadas de gestão patrimonial será determinante para consolidar sua posição no mercado.