Mark Zuckerberg critica concentração do desenvolvimento de inteligência artificial e defende modelo aberto
O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, elevou o tom na disputa entre gigantes da tecnologia sobre o futuro da inteligência artificial. Em entrevista concedida ao The New York Times, o executivo afirmou que concentrar o desenvolvimento de modelos avançados em poucas empresas representa um risco para a inovação e para o acesso da sociedade à tecnologia. Embora não tenha citado nomes em diversos momentos da conversa, Zuckerberg deixou claro que suas críticas se dirigiam a empresas como OpenAI e Anthropic, que adotam uma postura mais cautelosa e controlada na disponibilização de seus sistemas.
Segundo o executivo, o discurso predominante entre os laboratórios concorrentes é marcado por um pessimismo excessivo que vai contra a tradição histórica do setor de tecnologia nos Estados Unidos. Para Zuckerberg, é necessário trazer mais realismo ao debate sobre os rumos da inteligência artificial, em vez de tratá-la apenas como uma ameaça que precisa ser restringida a qualquer custo.
A divergência exposta por Zuckerberg não é recente, mas ganhou novos contornos nos últimos meses. Executivos como Dario Amodei, da Anthropic, e Sam Altman, da OpenAI, defendem que os modelos mais avançados já apresentam riscos significativos e devem ser desenvolvidos sob mecanismos rígidos de controle. Por outro lado, empresas como Microsoft, Nvidia, Google e a própria Meta argumentam que a ampla disponibilidade desses sistemas é fundamental para impulsionar pesquisas, novos negócios e o progresso tecnológico como um todo.
O debate ganhou força adicional neste mês após modelos chineses de inteligência artificial reduzirem a vantagem tecnológica que empresas norte-americanas como Anthropic e OpenAI mantinham no setor. Em resposta, essas companhias intensificaram o diálogo com reguladores em Washington e manifestaram preocupação crescente com o avanço de modelos de código aberto, ou seja, sistemas cujo código-fonte é disponibilizado publicamente para que qualquer pessoa possa estudar, modificar e distribuir, desenvolvidos na China.
Na última sexta-feira, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, publicou uma carta defendendo o desenvolvimento de softwares de código aberto para inteligência artificial. A posição recebeu apoio de diversas empresas do setor. Ainda nesta semana, Huang anunciou uma coalizão voltada à criação de ferramentas abertas de segurança e cibersegurança para IA, reunindo companhias como SpaceX e IBM. Huang e Altman estão entre os executivos que viajaram a Washington para discutir com o governo do presidente Donald Trump possíveis políticas para o setor.
Durante a entrevista ao The New York Times, Zuckerberg reiterou sua visão de que a inteligência artificial deve estar disponível para o maior número possível de pessoas. Ele também se posicionou contra a ideia de criar uma única superinteligência centralizada e totalmente alinhada aos interesses da humanidade, conceito frequentemente associado aos debates sobre segurança em IA. Segundo o executivo, é literalmente impossível existir uma única superinteligência benevolente que esteja alinhada com todas as pessoas ao mesmo tempo.
Como alternativa, Zuckerberg propôs o conceito de "superinteligência personalizada", no qual os assistentes de IA poderiam ser configurados de acordo com as necessidades, preferências e valores individuais de cada usuário. Para ele, a trajetória da indústria de tecnologia sempre caminhou no sentido de ampliar o acesso às ferramentas e colocar o poder da tecnologia nas mãos de mais pessoas, e não de menos.
Até o momento da publicação da entrevista, OpenAI e Anthropic não haviam se manifestado sobre as declarações de Zuckerberg. Em ocasiões anteriores, a OpenAI afirmou apoiar iniciativas de código aberto e disse trabalhar com a Casa Branca para desenvolver formas seguras de expandir a inteligência artificial. Na segunda-feira, Amodei publicou um texto no qual afirmou que a Anthropic está concentrada em impedir que chips avançados cheguem a regimes autoritários, evitar a reprodução em larga escala de modelos de IA e exigir testes de segurança para sistemas altamente capazes, independentemente de serem abertos ou fechados.
Apesar das divergências públicas, pesquisadores de Anthropic, OpenAI, Meta e Google assinaram conjuntamente uma carta aberta intitulada "Pacing the Frontier". O documento defende um esforço internacional para desenvolver ferramentas técnicas e mecanismos de governança capazes de desacelerar o avanço da IA quando necessário por razões de segurança.
A posição da Meta sobre inteligência artificial também passou por mudanças significativas nos últimos anos. A empresa ficou conhecida por disponibilizar gratuitamente modelos de código aberto, mas perdeu espaço para OpenAI e Anthropic após a chegada de sistemas como o ChatGPT. Diante desse cenário, Zuckerberg reformulou a estratégia da companhia. A Meta investiu US$ 14,3 bilhões na startup Scale AI e contratou seu fundador, Alexandr Wang, para liderar a divisão de inteligência artificial, rebatizada de Meta Superintelligence Labs. Bilhões de dólares também foram destinados à contratação de pesquisadores especializados, que passaram a desenvolver um novo modelo fechado de IA, em vez de totalmente aberto.
Neste mês, a Meta iniciou a venda de acesso ao seu modelo Muse Spark, marcando a primeira vez que a empresa comercializa diretamente um sistema de inteligência artificial, ao mesmo tempo em que mantém o desenvolvimento de modelos de código aberto. Para Zuckerberg, essa combinação entre abertura e comercialização reflete a tendência natural do setor rumo a uma democratização crescente das ferramentas de IA.