A multinacional brasileira Senior Sistemas anunciou o lançamento de uma arquitetura inédita na América Latina que permite operar sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP, por meio de modelos de linguagem de grande escala como ChatGPT, da OpenAI, e Claude, da Anthropic. A iniciativa conecta plataformas de inteligência artificial generativa diretamente à infraestrutura dos softwares de gestão, permitindo que usuários executem rotinas administrativas por comandos em linguagem natural, sem abrir mão das regras de segurança e das permissões corporativas.

A tecnologia representa uma mudança significativa na forma como empresas interagem com seus sistemas corporativos. Em vez de navegar por menus, telas e relatórios, os usuários poderão conversar com a ferramenta de IA, que interpretará a intenção da solicitação e acionará o ERP para consultar dados, aplicar parâmetros operacionais e executar as rotinas dentro das autorizações concedidas a cada funcionário.

Senior lança primeiro ERP da América Latina operável por IA - Imagem complementar

A Senior Sistemas, fundada em 1988 e sediada em Blumenau, Santa Catarina, é uma das principais fornecedoras de software de gestão empresarial do Brasil. A empresa também integrou à nova arquitetura o SARA, ecossistema de inteligência artificial desenvolvido internamente pela própria companhia.

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Para viabilizar a comunicação entre as plataformas de linguagem e o ERP, a Senior adotou o Model Context Protocol, ou MCP, um padrão que funciona como uma camada de integração responsável por traduzir comandos emitidos em linguagem natural em instruções autorizadas para o sistema de gestão. O mecanismo processa solicitações de informação e executa tarefas respeitando as alçadas de aprovação, os limites de acesso dos funcionários, o histórico de transações, a legislação fiscal e a segurança das informações.

A arquitetura baseada em MCP estabelece uma diferença importante em relação às ferramentas convencionais baseadas em chatbots e copilotos. Os assistentes virtuais tradicionais limitam-se a responder perguntas a partir de conteúdos pré-determinados, sem acesso em tempo real aos dados transacionais da empresa. Os copilotos, por sua vez, auxiliam na interpretação de relatórios e sugerem procedimentos, mas exigem que o usuário execute manualmente as ações no sistema.

A nova proposta permite a interação direta com a base operacional das companhias. O modelo atua em uma escala evolutiva que vai desde a prestação de informações até a preparação e a execução final de rotinas autorizadas. Para evitar riscos, o acesso concedido às ferramentas de IA é delimitado por capacidades específicas, e o próprio ERP supervisiona a aplicação das normas institucionais.

Graciele de Lima, head-executiva de ERP na Senior Sistemas, explicou que a iniciativa não consiste em posicionar uma inteligência artificial ao lado do ERP, mas em permitir que a IA opere dentro das regras do sistema. Segundo ela, o modelo de linguagem interpreta a intenção do usuário, a arquitetura de MCPs conecta essa intenção às capacidades autorizadas, e o ERP consulta os dados, aplica as regras de negócio, valida as permissões e controla a execução.

Na prática, um gestor poderá perguntar ao sistema quais pedidos estão parados aguardando faturamento, quais clientes reduziram o volume de compras, quais notas fiscais apresentam inconsistências ou quais pedidos podem ser faturados naquele momento. A partir dos dados contidos no ERP, a IA poderá organizar as informações, identificar exceções e apoiar a tomada de decisão. Em processos autorizados, a interação poderá avançar da consulta para a preparação e a execução de ações.

Graciele destacou ainda que a mudança não se limita à interface. Ela afirmou que a arquitetura desbloqueia um potencial de automação e personalização da experiência, permitindo que as empresas criem agentes, interfaces e fluxos de forma mais simples, ampliando a capacidade cognitiva para analisar cenários, tomar decisões e executar operações sem perder a governança do ERP.

As aplicações iniciais do protocolo foram concentradas em jornadas dos setores de vendas e finanças. O plano de expansão contempla a extensão da tecnologia para departamentos fiscais, contábeis, de compras, suprimentos e controle de estoque. A estratégia de integração por linguagem natural também prevê alcance para outras linhas do portfólio de softwares do grupo, como as plataformas de gestão de pessoas, conhecidas pela sigla HCM.

A expansão de sistemas baseados em agentes autônomos motivou debates no setor de tecnologia sobre a permanência dos softwares de gestão empresarial. Rogerio Nascimento, head de Inteligência Artificial da Senior, avaliou que as discussões atuais apontam para a necessidade de integração entre os agentes virtuais e as rotinas operacionais dos negócios, e não para a substituição de um pelo outro.

Nascimento afirmou que o futuro dos sistemas de gestão não é a substituição do ERP pela inteligência artificial, mas a transformação do ERP em uma plataforma capaz de fornecer contexto confiável para que a IA compreenda o negócio, preserve a governança e execute processos. Segundo ele, os dados, as diretrizes e o retrato operacional de cada organização continuam sendo elementos insubstituíveis dentro do ERP.

A vantagem competitiva da iniciativa, segundo a companhia, está na capacidade de conectar modelos de linguagem à realidade exclusiva de cada organização, construída por décadas de dados, práticas operacionais, critérios empresariais e conhecimento acumulado. Nascimento concluiu que, quando a inteligência artificial passa a compreender os dados da empresa, ela deixa de oferecer respostas genéricas e passa a apoiar decisões e executar rotinas com segurança, transformando a interação com os sistemas de gestão em uma experiência baseada em perguntar, compreender, decidir e agir em linguagem natural.