O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República solicitando investigação sobre o uso de imagem gerada por inteligência artificial que simula uma fala do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O documento também questiona a participação do presidente argentino Javier Milei no evento, realizado como parte das articulações políticas para a disputa eleitoral. O caso coloca em evidência os limites legais do emprego de ferramentas de inteligência artificial em campanhas eleitorais no Brasil e reacende debates sobre propaganda antecipada e o cumprimento de decisões judiciais que restringem a atuação política de Bolsonaro.

O Partido dos Trabalhadores (PT) ampliou a ofensiva institucional e acionou também o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nos pedidos encaminhados aos tribunais, a legenda solicita a remoção imediata do vídeo gerado por inteligência artificial e a aplicação de multas aos responsáveis pela veiculação do conteúdo.

Lindbergh aciona PGR por uso de IA e atuação de Milei em convenção do PL - Imagem complementar

A notícia-crime assinada por Lindbergh Farias sustenta que o uso de uma simulação de fala de Bolsonaro configura potencial violação de normas eleitorais vigentes. O ex-presidente responde a múltiplas condenações judiciais que limitam seus direitos políticos, incluindo restrições relacionadas a episódios investigados no âmbito das ações do STF. A representação argumenta que a produção e exibição de um vídeo com fala sintetizada por IA, imitando a voz e a imagem de Bolsonaro, pode constituir tentativa de burlar essas restrições impostas pela Justiça.

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A presença do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL compõe o segundo eixo da denúncia protocolada na PGR. Milei, conhecido por sua postura alinhada a pautas de direita e por sua proximidade ideológica com a família Bolsonaro, participou do evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. A atuação de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira levanta questões sobre os limites da interferência externa em processos eleitorais nacionais, tema que o pedido de investigação busca examinar.

A legislação eleitoral brasileira ainda não conta com um arcabouço regulatório específico e abrangente sobre o uso de inteligência artificial em campanhas. O TSE tem editado resoluções para tentar disciplinar a matéria, exigindo, por exemplo, a identificação de conteúdos sintéticos e proibindo o emprego de deepfakes, vídeos ou áudios manipulados por IA que distorcem a realidade de forma realista. O caso da convenção do PL coloca a justiça eleitoral diante de um teste concreto sobre como aplicar essas regras a situações que envolvem figuras políticas com restrições judiciais de atuação.

O vídeo exibido durante a convenção utilizou técnicas de geração de imagem e voz por inteligência artificial para criar a aparência de que Bolsonaro discursava ao vivo para os filiados e apoiadores presentes. Esse tipo de tecnologia, que combina modelos de síntese de voz com geração visual, tem se tornado cada vez mais acessível e sofisticada, o que amplia as preocupações de especialistas em integridade eleitoral sobre seu uso deliberado para enganar o eleitorado.

A solicitação de remoção do conteúdo, encaminhada ao TSE e ao STF, baseia-se no argumento de que a veiculação do vídeo pode configurar propaganda eleitoral antecipada, prática vedada pela legislação brasileira fora do período autorizado para campanha. O PT sustenta que a exibição do material durante uma convenção partidária com ampla cobertura da imprensa extrapola os limites legais do ato de escolha de candidatos.

A participação de Milei no evento também pode atrair a atenção de órgãos de controle sobre eventuais implicações diplomáticas e legais. O Código Eleitoral brasileiro estabelece restrições à participação de estrangeiros em atos de campanha, embora o debate sobre como essas normas se aplicam a figuras do escalão presidencial de outros países ainda seja objeto de interpretação jurídica.

Para a comunidade jurídica e os especialistas em direito eleitoral, o caso representa um marco na discussão sobre a regulamentação de tecnologias sintéticas no contexto político. A possibilidade de criar falas, imagens e vídeos realistas a partir de modelos de inteligência artificial coloca desafios inéditos para os mecanismos tradicionais de fiscalização eleitoral, baseados em monitoring de mídia e denúncias partidárias.

A PGR terá agora que avaliar se há indícios suficientes para abrir um inquérito formal sobre as matérias denunciadas por Lindbergh Farias. Paralelamente, o STF e o TSE precisam decidir sobre os pedidos cautelares do PT, incluindo a remoção do vídeo e a aplicação de sanções. As decisões tomadas nesses fóruns podem estabelecer precedentes relevantes para o tratamento jurídico de conteúdos gerados por IA em futuros ciclos eleitorais no Brasil.

O episódio também reúne elementos que extrapolam o debate estritamente tecnológico. A combinação entre o uso de inteligência artificial para contornar restrições judiciais impostas a uma figura política de projeção nacional, a presença de um mandatário estrangeiro em convenção partidária e as alegações de propaganda antecipada cria um cenário jurídico de alta complexidade.

A capacidade da justiça eleitoral brasileira de responder com agilidade a esse tipo de situação será observada de perto por partidos políticos, organismos internacionais de fiscalização eleitoral e pesquisadores dedicados ao impacto das tecnologias digitais na democracia. O caso da convenção do PL pode se tornar referência obrigatória nas discussões sobre os limites legais do uso de ferramentas de inteligência artificial no cenário político brasileiro.