O Google utilizou inteligência artificial generativa para recriar o que Pelé considerava o gol mais bonito de sua carreira, marcado em 2 de agosto de 1959, em uma partida entre Santos e Juventus no Estádio Conde Rodolfo Crespi, na Rua Javari, bairro da Mooca em São Paulo. O lance nunca foi filmado e, até agora, existia apenas na memória de quem esteve presente nas arquibancadas naquela tarde. A iniciativa resultou em um documentário que combina registros históricos, depoimentos de testemunhas e ferramentas avançadas de IA para reconstruir o momento com o maior grau de fidelidade possível.

A jogada histórica envolveu três chapéus consecutivos — movimento em que o jogador levanta a bola por cima do adversário — aplicados em defensores e no goleiro do Juventus, sem deixar a bola tocar o gramado, antes de concluí-la para as redes. Pelé, que faleceu em dezembro de 2022, sempre citou esse gol como sua maior pintura em campo, mas lamentava publicamente a ausência de qualquer registro em vídeo.

Google usa IA para recriar gol histórico de Pelé sem filmagem original - Imagem complementar

Para dar vida ao projeto, o Google reuniu aproximadamente 2 mil registros históricos. A equipe de pesquisa mapeou as plantas arquitetônicas originais do estádio, resgatou fotografias de álbuns antigos e conduziu entrevistas com testemunhas oculares que presenciaram a partida ao vivo. Jornalistas e moradores do bairro da Mooca também foram consultados para validar detalhes do ambiente e da jogada.

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Com o auxílio de maquetes físicas, diagramas e fotos de arquivo, os pesquisadores trabalharam junto aos torcedores que estiveram presentes ao jogo para estimular a recuperação de detalhes específicos da jogada na memória. Esse material de depoimentos e recordações serviu como base narrativa para alimentar os modelos de inteligência artificial utilizados na reconstrução visual.

A produção também contou com gravações de cenas reais feitas diretamente no estádio da Rua Javari. O elenco envolvido utilizou bolas de couro pesadas e uniformes idênticos aos usados em 1959 para recriar a ambientação da época. Um dublê de ação foi empregado para mapear a fisionomia de Pelé e reproduzir a movimentação característica do jogador com a camisa número 10.

Essa base física foi então integrada aos modelos de IA generativa desenvolvidos pelo Google DeepMind, divisão de pesquisa em inteligência artificial da empresa. As ferramentas Veo, Gemini e Nano Banana Pro processaram as informações coletadas em conjunto com recursos visuais tradicionais. Veo é um modelo de geração de vídeo do Google, enquanto Gemini é a família de modelos de linguagem de uso geral da empresa. A combinação dessas tecnologias permitiu reconstituir o estádio, ajustar a iluminação para simular as condições climáticas do dia da partida e gerar a reação dos torcedores na arquibancada.

A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a Pelé Brand, empresa responsável pela gestão do patrimônio do ex-atleta, e recebeu a aprovação dos familiares de Pelé. Flávia Kurtz, filha do jogador, declarou que ele sempre dizia que era uma pena o gol nunca ter sido gravado e que poder revivê-lo com tecnologia era maravilhoso.

O projeto despertou ampla repercussão nacional, com cobertura de veículos como G1, Exame, Época Negócios e Tecmundo. O atacante Neymar, que atuou pelo Santos assim como Pelé, comentou o feito nas redes sociais e afirmou que o lance mudou o futebol para sempre.

O documentário final já está disponível para o público nos canais oficiais do YouTube do Google e do próprio Pelé. O material apresenta tanto a reconstituição gerada por IA quanto os bastidores do processo de pesquisa, com as entrevistas, as gravações no estádio e as etapas de processamento digital.

A iniciativa demonstra como modelos de IA generativa podem ser aplicados para preservar e recriar momentos culturais e esportivos que não contavam com registros audiovisuais. No caso do gol da Rua Javari, a ausência total de filmagens torna a reconstrução especialmente dependente de depoimentos humanos e de inferência algorítmica, o que coloca a tecnologia no papel de ferramenta de preservação histórica.

A aplicação de IA generativa em contextos de reconstituição histórica ainda levanta discussões sobre o limite entre representação e fato documental. No projeto do Google, a transparência sobre o uso de tecnologia é parte da narrativa do próprio documentário, que apresenta abertamente os métodos e fontes empregados na reconstrução. Para profissionais que trabalham com inteligência artificial, o caso ilustra um uso criativo e controlado de modelos generativos em que a origem dos dados e o processo de geração são explicitados para o espectador.