A Meta ativou automaticamente em contas públicas do Instagram um recurso de inteligência artificial que permite usar fotografias de usuários como referência para gerar novas imagens, sem necessidade de autorização prévia. A ferramenta, chamada Muse Image, está integrada à plataforma e habilitada por padrão, o que significa que qualquer pessoa pode criar imagens com características visuais semelhantes às de perfis públicos, levantando preocupações significativas de privacidade e riscos de manipulação por deepfakes — vídeos ou imagens falsificados por IA que imitam a aparência de pessoas reais.

A medida afeta diretamente todos os usuários com contas públicas no Instagram, rede social pertencente à Meta, empresa controladora também do Facebook e do WhatsApp. A decisão de habilitar o recurso sem um consentimento explícito coloca a companhia no centro de mais um debate sobre o uso de dados pessoais em sistemas de inteligência artificial, tema que já rendeu questionamentos regulatórios em diversos países.

Instagram usa fotos de perfis públicos em IA da Meta; saiba desativar - Imagem complementar

O Muse Image funciona como uma ferramenta de geração de imagens por IA que tem acesso ao acervo visual de perfis públicos do Instagram. Quando ativado, o sistema pode analisar características como rosto, estilo fotográfico, composição e elementos visuais presentes nas fotos publicadas e utilizá-los como base para criar novas imagens sintéticas.

PUBLICIDADE

Isso significa que, a partir do momento em que o recurso está ativo, terceiros podem produzir imagens geradas artificialmente que se assemelham a uma pessoa específica, utilizando como material de referência as fotografias que ela compartilhou publicamente na plataforma. A funcionalidade não exige que o criador da imagem tenha qualquer relação com o usuário cuja foto foi usada como base.

A ativação automática em contas públicas é o aspecto mais problemático da iniciativa. Diferente de uma abordagem em que o usuário precisaria optar por participar — o chamado opt-in —, a Meta adotou o modelo de opt-out, no qual o recurso vem ligado e o usuário precisa tomar a iniciativa de desativá-lo manualmente.

Essa estratégia não é novidade na empresa. A Meta já havia adotado postura semelhante em episódios anteriores relacionados ao treinamento de modelos de linguagem com dados de usuários no Brasil e na Europa, quando também habilitou automaticamente a coleta de informações, exigindo que os usuários descubrissem e desativassem o recurso por conta própria.

O principal risco apontado por especialistas em segurança digital é a facilidade com que o recurso pode ser explorado para a criação de deepfakes. Como o sistema pode usar fotos de uma pessoa para gerar imagens novas que preservam suas características faciais, torna-se possível produzir conteúdo falso com aparência realista, que pode ser usado para desinformação, extorsão, assédio ou fraudes de identidade.

Deepfakes são manipulações de mídia criadas por inteligência artificial que substituem ou recriam a imagem e a voz de uma pessoa com alto grau de realismo. A tecnologia tem sido cada vez mais utilizada em golpes, campanhas de desinformação e ataques de cunho pessoal, e a popularização de ferramentas que facilitam sua criação amplifica esses riscos de forma significativa.

Para desativar o uso de suas fotos pelo Muse Image, o usuário precisa acessar as configurações de privacidade dentro do aplicativo do Instagram. O caminho envolve abrir o perfil, tocar no menu de opções no canto superior direito, selecionar a área de configurações e privacidade, procurar pela seção relacionada ao uso de dados para inteligência artificial e desativar a permissão que autoriza a plataforma a utilizar as imagens do perfil como referência para geração de conteúdo por IA.

É importante destacar que a desativação não retroage sobre imagens que já tenham sido processadas ou utilizadas antes da mudança. O recurso impede usos futuros, mas não garante a remoção de conteúdos sintéticos já gerados a partir das fotos do perfil, o que representa uma limitação relevante da proteção oferecida.

A decisão da Meta ocorre em um contexto de acelerada expansão de suas ferramentas de inteligência artificial. A empresa tem investido na integração de recursos gerativos em todas as suas plataformas, buscando competir com empresas como OpenAI — responsável pelo ChatGPT — e Google, que também disputam o mercado de modelos capazes de gerar textos, imagens e vídeos.

Contudo, o equilíbrio entre inovação e proteção de dados continua sendo um desafio. Reguladores brasileiros e europeus têm questionado repetidamente as práticas da Meta em relação ao uso de dados pessoais para treinamento e operação de sistemas de IA, e a ativação automática de um recurso que envolve a imagem dos usuários deve render novos desdobramentos nessa frente.

Para usuários que mantêm contas públicas no Instagram por motivos profissionais, comerciais ou de exposição, a situação cria um dilema. Permanecer com o perfil aberto pode significar expor suas imagens a uso não autorizado, enquanto tornar a conta privada pode limitar o alcance e a visibilidade que muitos buscam na plataforma.

A recomendação de especialistas é que todos os usuários revisem suas configurações de privacidade com regularidade, já que as plataformas frequentemente introduzem novos recursos ativados por padrão. Verificar periodicamente quais permissões estão concedidas é uma prática fundamental para manter controle sobre a própria imagem e dados pessoais em ambientes digitais cada vez mais orientados por inteligência artificial.