A cooperação entre a OpenAI, o FBI e autoridades brasileiras resultou na prisão de um agricultor de 36 anos, em São Gabriel da Palha, no norte do Espírito Santo, que planejava matar o próprio filho de 8 anos. O caso ganhou destaque por ter sido desencadeado a partir de um alerta gerado pelo uso do ChatGPT, ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pela OpenAI, empresa que também responde pelos modelos de linguagem da série GPT.

A prisão ocorreu no dia 19 de junho, um dia antes da data em que o suspeito pretendia executar o crime. O caso foi divulgado na sexta-feira, 27 de junho, pela TV Gazeta, com detalhes da investigação conduzida pela Polícia Civil do Espírito Santo.

OpenAI alerta FBI e ajuda a prevenir crime planejado via ChatGPT - Imagem complementar

A detenção representa um marco na utilização de sistemas de inteligência artificial como instrumento de prevenção a crimes graves. Segundo a polícia, trata-se da primeira investigação desse tipo registrada no Espírito Santo e apenas a terceira no Brasil iniciada a partir de uma comunicação feita por uma plataforma de inteligência artificial às autoridades.

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O delegado Breno Andrade, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos, explicou que o homem utilizava o ChatGPT como uma espécie de diário pessoal. Nas interações com a plataforma, ele relatava pensamentos violentos, realizava pesquisas recorrentes sobre formas de matar a criança e descrevia planos criminosos em detalhes.

Ao identificar o conteúdo alarmante nas conversas, a OpenAI encaminhou as informações ao FBI, a agência federal de investigação dos Estados Unidos. O órgão norte-americano, por sua vez, acionou o Laboratório de Operações Cibernéticas, conhecido como Ciberlab, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil, que repassou os dados à Polícia Civil capixaba.

Segundo o delegado, a frequência das pesquisas realizadas pelo suspeito e o risco iminente de que as ameaças se concretizassem motivaram uma resposta rápida das autoridades. A celeridade foi determinante para que a prisão ocorresse antes da data planejada para o crime.

As investigações apontaram que a motivação do suspeito para matar o filho estava ligada à pensão alimentícia. O agricultor demonstrava preocupação com a possibilidade de que, em sua ausência, a ex-companheira cobrasse os valores da pensão junto à avó paterna da criança.

Mensagens obtidas pela polícia revelam que o homem chegou a oferecer R$ 50 mil a um pistoleiro para que executasse o menino. O suposto executor, contudo, desistiu do crime ao descobrir que a vítima seria uma criança de 8 anos.

Apesar de admitir ter realizado as pesquisas no ChatGPT, o agricultor negou ter intenção de colocar os planos em prática. A polícia, no entanto, considera que as provas técnicas reunidas até o momento são consistentes e suficientes para sustentar a continuidade da investigação.

Durante as análises das conversas e das mensagens trocadas pelo suspeito, os investigadores descobriram que as intenções violentas extrapolavam o ambiente familiar. O homem também manifestava desejo de atacar agentes de segurança pública e de realizar atentados em locais frequentados por pessoas, como escolas e igrejas.

Em uma das mensagens analisadas pela polícia, o suspeito afirmou ter pensado em pegar uma arma e matar policiais próximos a um batalhão. Em outro trecho, escreveu que sentia prazer ao ver outras pessoas sofrendo e queria compreender a origem desse sentimento.

Além das ameaças diretas, o investigado realizou pesquisas sobre substâncias altamente tóxicas, métodos de obtenção de venenos e os efeitos desses compostos no organismo humano. Segundo a polícia, ele relatou ainda possuir arma de fogo, corda e cianeto, substância extremamente letal.

Para o delegado Breno Andrade, o episódio reforça a importância da cooperação internacional no combate a crimes cibernéticos e na prevenção de atos de violência extrema. A articulação entre uma empresa de tecnologia sediada nos Estados Unidos, uma agência federal norte-americana e órgãos brasileiros demonstrou a eficácia do fluxo de informações entre instituições de diferentes países.

O inquérito segue em andamento. A perícia no celular do suspeito poderá ampliar a lista de crimes investigados, uma vez que novas evidências podem surgir durante a análise técnica do aparelho.

Entre as hipóteses criminais analisadas pela polícia estão tentativa de homicídio, ameaça, incitação ao crime e apologia ao crime. O caso continua sendo investigado pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos do Espírito Santo.