A plataforma imobiliária QuintoAndar anunciou um aporte de R$ 2 bilhões em desenvolvimento de tecnologia nos próximos dois anos, com prioridade para inteligência artificial. O investimento, segundo o CEO Gabriel Braga, será integralmente destinado ao fortalecimento da própria equipe da empresa e não contempla operações de fusões ou aquisições. Os recursos provêm da operação da companhia, que atualmente opera com lucratividade e se autossustenta financeiramente.
O movimento posiciona o QuintoAndar entre os maiores investidores em tecnologia do ecossistema brasileiro de startups e sinaliza uma transformação profunda na forma como a empresa estrutura seus produtos e processos internos. A inteligência artificial já é aplicada em frentes como precificação de imóveis, análise de crédito e suporte aos corretores parceiros, mas o plano é expandir essa integração de maneira significativa.
Braga afirma que o aplicativo da plataforma passará por uma revisão nos próximos meses para incorporar a inteligência artificial de forma mais radical. A ideia central é transformar a experiência do usuário em uma interação conversacional, por texto ou por voz, na qual o cliente possa acessar serviços de locação, compra e venda de imóveis como se estivesse em uma conversa natural. As trocas de mensagens feitas pelo WhatsApp também serão integradas ao histórico do cliente dentro do aplicativo, unificando os canais de comunicação.
Um objetivo paradoxal orienta a estratégia: usar mais tecnologia para atingir um público mais diverso em idade e menos familiarizado com inovações digitais. Braga argumenta que qualquer pessoa, independentemente de sua familiaridade com tecnologia, consegue interagir com a inteligência artificial por meio de conversa escrita ou falada, o que deve reduzir barreiras de entrada para novos usuários.
A aplicação atual de inteligência artificial já rende resultados mensuráveis, segundo o executivo. Braga relata que houve melhoria na taxa de conversão e no número de operações realizadas pela empresa, embora não tenha divulgado números específicos. Ele afirma não ter dúvidas de que o retorno sobre o investimento de R$ 2 bilhões ocorrerá antes do prazo de dois anos estipulado para o aporte.
Na área de precificação, a tecnologia vai além de sugerir o valor adequado para o imóvel. A ferramenta também dialoga com o proprietário para compreender suas motivações ao colocar a propriedade no mercado, o que contribui para uma maior adesão ao preço recomendado. Esse mecanismo conversacional ajuda a alinhar expectativas entre a plataforma e os clientes que pretendem alugar ou vender.
A inteligência artificial também participa ativamente da análise de crédito dos usuários interessados em alugar imóveis, acelerando e refinando o processo de aprovação. Além disso, a tecnologia funciona como uma espécie de orientador para os corretores parceiros, indicando quais consumidores demonstram maior propensão a concluir negócios e auxiliando no gerenciamento de agendas de visitas e contatos.
Apesar do papel crescente da automação, Braga descarta a substituição do corretor humano. Segundo ele, há uma dimensão física e presencial no trabalho que não pode ser reproduzida pela tecnologia, como a visita ao imóvel e a sensação de segurança que o profissional pode transmitir no momento do fechamento do contrato. A empresa afirma inclusive ter ampliado sua rede de imobiliárias parceiras, descritas em número de centenas, embora não detalhe a taxa de crescimento.
O anúncio do investimento em tecnologia coincide com a inauguração da nova sede do QuintoAndar em São Paulo. O escritório ocupa 7 mil metros quadrados no empreendimento Arquipeo, da Brookfield, localizado no bairro da Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista. A área representa um crescimento de 75% em relação ao espaço anteriormente ocupado na Vila Madalena. Segundo a consultoria Binswanger, o metro quadrado na Vila Leopoldina é locado a aproximadamente R$ 100,77 por mês, o que projetaria um custo de aluguel mensal na ordem de R$ 705,4 mil.
A diretora-executiva de recursos humanos, Deborah Abi-Saber, conta que foram necessários três meses de obras para adaptar o escritório às necessidades da empresa. Braga esclarece que a mudança não está diretamente ligada ao crescimento do quadro de funcionários, mas à busca por um espaço mais convidativo para as equipes que atuam em modelo híbrido, combinação de dias presenciais e remotos que será mantida. A empresa conta hoje com mais de 3 mil funcionários, sendo 1,8 mil em São Paulo, enquanto o novo escritório dispõe de 400 estações de trabalho.
Além de São Paulo, o QuintoAndar mantém escritório em Belo Horizonte, hubs para parceiros no Rio de Janeiro e em Porto Alegre e uma operação em Lisboa, onde funciona em espaço de coworking. É justamente em Lisboa que está concentrada a maior parte da equipe dedicada a inteligência artificial da empresa.
Sobre uma eventual abertura de capital, Braga reconhece que esse é provavelmente o caminho a ser seguido em algum momento, sem, no entanto, definir uma data. A preferência, segundo o executivo, seria por uma oferta pública inicial de ações no exterior. A empresa não divulga dados de faturamento. A percepção interna, no entanto, é clara: deixar de investir em tecnologia neste momento significaria perder posição no setor imobiliário, em um cenário em que a inteligência artificial passa a redefinir as relações entre consumidores e plataformas digitais.