A Apple anunciou nesta segunda-feira, durante a conferência anual Worldwide Developers Conference (WWDC), a reformulação completa da Siri com base no modelo de inteligência artificial Gemini, da Google. A nova assistente virtual, batizada de Siri AI, representa uma mudança estratégica significativa na postura da empresa, que passa a contar com a tecnologia de uma rival para modernizar seu assistente de voz. O anúncio foi feito pelo atual CEO Tim Cook na sede da empresa, no Silicon Valley, num evento que também marca sua última participação na WWDC nesse cargo, já que John Ternus está designado para assumir a liderança executiva.

A parceria entre Apple e Google para o uso do Gemini é o pilar técnico da nova Siri. Mike Rockwell, vice-presidente de engenharia da Siri na Apple, explicou que a assistente ganhará um aplicativo próprio, modelo semelhante ao oferecido por empresas como a OpenAI, responsável pelo ChatGPT, e a Anthropic, criadora do Claude. A nova interface promete uma experiência mais conversacional, com uma voz renovada e capacidade de se basear em interações anteriores do usuário.

Apple anuncia Siri AI com modelo Gemini do Google na WWDC 2026 - Imagem complementar

A integração com o ecossistema Apple é um dos pontos centrais do projeto. O histórico de conversas será sincronizado entre os dispositivos do usuário, permitindo continuidade no diálogo independentemente de estar no iPhone, iPad ou MacBook. As funcionalidades incluem auxílio no planejamento diário, compreensão de imagens e até compra online de bilhetes. Um dos recursos mais curiosos é a possibilidade de apontar a câmera para alimentos e receber informações nutricionais em tempo real.

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Apesar do alcance ambicioso, a Siri AI terá limitações geográficas e de hardware importantes. Em sua primeira fase, a assistente estará disponível apenas em inglês e não chegará à União Europeia. Segundo a Apple, as autoridades reguladoras europeias não aceitaram nenhuma das soluções propostas pela empresa para a introdução da inteligência artificial da Siri no bloco. Além disso, parte das funcionalidades exigirá dispositivos equipados com chips mais avançados da linha Apple.

Craig Federighi, responsável pela área de software da empresa, anunciou que o acesso ampliado a recursos como geração de imagens ficará condicionado à assinatura do iCloud+, serviço pago de armazenamento em nuvem da Apple. Federighi também criticou modelos de inteligência artificial que não levam em conta as pessoas a quem se destinam e garantiu que a nova Siri foi desenvolvida com foco nas necessidades do usuário, assegurando a privacidade em todas as etapas do processo.

A segurança infantil recebeu destaque especial na apresentação. A Apple anunciou ferramentas que prometem dar aos pais maior controle sobre o que os filhos podem ver, com quem conversam e quando têm acesso aos dispositivos. Uma nova funcionalidade chamada Ask vai exigir aprovação dos pais antes que crianças e adolescentes possam conversar com pessoas desconhecidas dentro da plataforma.

A interface do Tempo de Ecrã, recurso já existente no sistema operacional, também será reformulada para oferecer uma visão mais clara dos aplicativos mais utilizados. Outra medida anunciada foi a censura automática de qualquer imagem com conteúdo sexual ou violento enviada para um dispositivo identificado como pertencente a um menor.

Essas medidas surgem em resposta a críticas de defensores da segurança infantil, que há anos acusam a Apple de não adotar providências suficientes para proteger crianças em seus dispositivos. Na madrugada que antecedeu a apresentação principal, um grupo de manifestantes se reuniu no Apple Park Visitor Center para protestar contra a abordagem da empresa em relação à segurança de menores.

A decisão de recorrer ao Gemini da Google marca uma inflexão na estratégia da Apple em relação à inteligência artificial. A empresa investiu bilhões ao longo dos últimos anos no desenvolvimento de modelos próprios, mas agora reconhece, na prática, a superioridade técnica da solução oferecida pela Google para a tarefa de reerguer sua assistente virtual.

Para o mercado brasileiro, a novidade é relevante tanto pelo impacto direto nos milhões de usuários de iPhone no país quanto pelas implicações competitivas. A Siri AI entra em disputa com assistentes como a Alexa, da Amazon, e outros concorrentes que também buscam se consolidar como plataformas de inteligência artificial conversacional integradas ao cotidiano.

Francisco Jerónimo, vice-presidente de dados e análise da IDC EMEA, empresa de inteligência de mercado, avaliou que, se a Apple conseguir oferecer uma experiência com a confiabilidade e a elegância que os usuários esperam, este poderá ser lembrado como o momento em que a Siri e a Apple Intelligence passaram de um papel secundário no ecossistema da empresa para o centro de seu futuro.

A expectativa agora é que a Siri AI chegue aos usuários no outono do hemisfério norte, período que corresponde à segunda metade do ano. A indefinição sobre a disponibilidade na União Europeia e o lançamento restrito ao inglês mostram que, apesar do avanço técnico, desafios regulatórios e de idioma ainda limitam o alcance global da aposta da Apple.