A velha economia se beneficia da onda de inteligência artificial com valorização de ações
Empresas tradicionais de setores como construção, engenharia e siderurgia estão entre as grandes vencedoras indiretas do avanço da inteligência artificial, mesmo sem atuarem diretamente no desenvolvimento de modelos ou ferramentas da tecnologia. Companhias como Caterpillar, conhecida pelos seus equipamentos de construção, a empreiteira alemã Hochtief e a siderúrgica americana Nucor fazem parte de um grupo de 200 empresas cujas ações estão superando o MSCI World Index, principal índice global de ações, considerando os 12 meses encerrados em 9 de junho.
O bom desempenho dessas empresas está diretamente ligado à crescente demanda por infraestrutura física necessária para sustentar a expansão da inteligência artificial. A construção e a operação de data centers, que abrigam os servidores e processadores utilizados para treinar e executar modelos de IA, exigem grande quantidade de equipamentos pesados, estruturas metálicas, sistemas elétricos e soluções de engenharia. É justamente nesse ponto que entram companhias da chamada velha economia, que tradicionalmente não estavam associadas ao universo digital.
Entre os exemplos mais citados estão a Caterpillar, fabricante norte-americana de máquinas pesadas utilizada em grandes obras, a Hochtief, construtora alemã com forte presença em projetos de infraestrutura, e a Nucor, uma das maiores produtoras de aço dos Estados Unidos. A empresa inventora do Pyrex, marca amplamente conhecida por seus produtos de vidro e cerâmica utilizados em laboratórios e cozinhas industriais, também aparece entre as companhias que vêm se beneficiando do movimento, devido à aplicação de seus materiais em componentes e equipamentos utilizados em ambientes de alta tecnologia.
O mercado tem interpretado esse fenômeno como uma evidência de que os efeitos da inteligência artificial vão muito além das empresas de software e das grandes plataformas digitais. Fabricantes de processadores, operadores de data centers e gigantes da tecnologia, geralmente chamadas de Big Techs, continuam sendo protagonistas da revolução da IA. No entanto, a cadeia produtiva que sustenta toda essa estrutura física também tem conseguido capturar parte expressiva do valor gerado pelo setor, refletindo-se na valorização de suas ações.
Apesar das preocupações recorrentes sobre a formação de uma possível bolha no mercado de inteligência artificial, o otimismo entre investidores e executivos permanece elevado. Empresas como a francesa Schneider Electric e a alemã Siemens têm destacado publicamente a importância estratégica dos data centers para seus planos de crescimento de longo prazo. Ambas são fornecedoras de soluções elétricas, automação industrial e gestão energética, áreas fundamentais para o funcionamento eficiente de grandes instalações de processamento de dados.
A Schneider Electric, em particular, tem posicionado seus produtos e serviços como peças-chave para a eficiência energética dos data centers, um tema cada vez mais relevante diante do alto consumo de eletricidade associado ao treinamento e à operação de modelos de inteligência artificial. Já a Siemens, gigante industrial alemã com atuação em múltiplos segmentos, enxerga nos data centers uma oportunidade de expandir sua presença no setor de infraestrutura tecnológica, aproveitando sua experiência em automação, digitalização e soluções integradas para indústrias.
O conjunto desses fatores tem contribuído para que empresas historicamente associadas a setores tradicionais consigam dialogar com o universo da inovação sem necessariamente desenvolver produtos voltados diretamente ao consumidor final de inteligência artificial. A exposição à demanda por infraestrutura tem se mostrado suficiente para impulsionar seus resultados financeiros e atrair a atenção de investidores que buscam diversificar suas apostas no ecossistema da IA.
Esse movimento também evidencia que a revolução da inteligência artificial é, antes de tudo, um projeto de escala industrial. Por trás de cada modelo avançado e de cada aplicação capaz de gerar texto, imagens ou código, existe uma cadeia complexa de fornecedores de energia, materiais, equipamentos e serviços de engenharia. À medida que os investimentos em data centers continuam crescendo em diversas regiões do mundo, a tendência é que essas empresas da velha economia permaneçam posicionadas como beneficiárias estruturais desse ciclo, consolidando-se como parceiras indispensáveis da economia digital.