Siri AI chega com Google por dentro e boa parte do mundo de fora
A Apple apresentou nesta segunda-feira, durante a conferência WWDC 2026, a nova geração da Siri baseada em inteligência artificial, batizada de Siri AI. A assistente foi reconstruída do zero após anos de promessas não cumpridas e agora promete manter conversas com múltiplas interações consecutivas, utilizar informações pessoais do usuário disponíveis em e-mails, mensagens e biblioteca de fotos, responder consultas em tempo real a partir da web e executar tarefas em diferentes aplicativos do sistema.
A empresa também anunciou que a Siri AI terá um aplicativo dedicado, além da integração em todo o sistema operacional. Nos iPhones, a atividade da assistente poderá ser acompanhada por meio da Dynamic Island, recurso de interface que mostra notificações e informações dinâmicas no topo da tela enquanto os pedidos são processados.
O anúncio mais relevante da apresentação, porém, não veio no palco principal. A Apple revelou que colaborou com o Google e com a família de modelos Gemini para desenvolver a próxima geração dos Apple Foundation Models, arquitetura de inteligência artificial na qual a Siri AI se apoia. Depois de passar dois anos afirmando que seus modelos internos conseguiriam acompanhar a concorrência, a empresa admitiu, de forma implícita, que precisava de apoio externo para alcançar o nível atual da indústria.
O vice-presidente sênior de engenharia de software da Apple, Craig Federighi, tentou antecipar as críticas sobre privacidade logo após a divulgação. Ele afirmou que a privacidade em inteligência artificial é inegociável e que os dados dos usuários são utilizados apenas para executar as solicitações, podendo ser verificados por especialistas externos a qualquer momento. Ainda assim, o cenário estratégico permanece complexo: a Apple, maior rival do Google no segmento de buscas, agora depende da empresa justamente para a camada de inteligência da sua principal assistente virtual, ao mesmo tempo em que o Google distribui seus próprios modelos Gemini em sistemas Android, no Workspace e em seus próprios dispositivos de hardware.
A nova Siri AI também será lançada de forma bastante restrita. A versão beta inicial, prevista para o final deste ano, será disponibilizada apenas em inglês. A China está fora do mapa de cobertura, com a Apple citando requisitos regulatórios ainda não resolvidos. Usuários da União Europeia também não terão acesso à assistente em iPhone ou iPad no lançamento, ficando a disponibilidade inicial limitada ao macOS 27 e ao visionOS 27, segundo informações atualizadas pela própria empresa.
Esse roteiro de lançamento revela gargalos significativos quando observado a partir da Ásia. A China, um dos mercados mais disputados pela Apple, foi excluída por completo, enquanto assistentes de fabricantes chineses seguem sendo distribuídas sem restrições. Um beta em inglês apenas deixa falantes de mandarim, japonês, coreano, bahasa e hindi, ou seja, a maior parte dos usuários de iPhone nos mercados de smartphones que mais crescem no mundo, com a versão antiga da Siri por tempo indeterminado. A Apple não informou quando novas línguas serão adicionadas.
A estrutura da keynote também chamou a atenção. Segundo a publicação TechCrunch, a Apple optou por abrir a apresentação consertando o que estava quebrado antes de mostrar o que havia de novo, posicionando a nova Siri como um item em uma lista extensa de novidades e não como o grande destaque do evento. Foi também um momento de transição interna. Esta foi a última WWDC de Tim Cook como presidente da empresa antes da posse de John Ternus, atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware, marcada para o dia 1º de setembro. Em suas palavras finais, Cook afirmou acreditar que o melhor ainda está por vir na Apple.
A Siri AI finalmente aparece como um produto concreto, e as demonstrações sugerem que os talentos de integração da empresa continuam vivos. No entanto, Ternus herda uma assistente que opera com modelos do Google e um plano de lançamento que pede à maior parte do planeta para esperar. A corrida para alcançar a concorrência, ao que tudo indica, está apenas começando.