Placas de circuito impresso viram foco estratégico na corrida da inteligência artificial nos EUA

A corrida pela inteligência artificial nos Estados Unidos ganhou um novo componente de preocupação que vai além dos chips mais avançados do mercado. Autoridades e empresas do país passaram a direcionar atenção para as placas de circuito impresso, peças fundamentais em qualquer sistema eletrônico, mas que durante anos permaneceram fora do centro das discussões sobre segurança nacional.

Placas de Circuito Impresso: O Novo Ponto Fraco na Corrida pela Supremacia Tecnológica nos EUA - Imagem complementar

Conhecidas pela sigla PCB, essas placas funcionam como a base física que conecta os chips e viabiliza a comunicação entre os diversos componentes de um dispositivo. Sem elas, nenhum processador, por mais potente que seja, consegue operar de forma integrada. A executiva Cathie Gridley, vice-presidente da fabricante TTM, resumiu a questão de forma direta em entrevista à CNBC: os chips não flutuam, eles precisam ser montados em uma placa para que todo o conjunto funcione corretamente.

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O problema é que a produção dessas peças está altamente concentrada na China. Dados da Associação de Placas de Circuito Impresso da América indicam que os Estados Unidos já chegaram a responder por cerca de 30% da produção mundial, índice que hoje caiu para apenas 4%. O diretor executivo da entidade, David Schild, classificou o cenário atual como uma dependência arriscada, levantando alertas sobre a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos americana.

Essa concentração despertou preocupações que vão além da disputa comercial entre Washington e Pequim. O Departamento de Defesa dos EUA teme que placas comprometidas durante o processo de fabricação possam ser utilizadas em ações de sabotagem contra equipamentos estratégicos, incluindo sistemas militares. Mike Cadenazzi, secretário adjunto de guerra dos EUA para política de base industrial, explicou que chips, substratos e placas de circuito representam múltiplas vias de ataque para um potencial agente malicioso, já que componentes podem ser escondidos em diferentes camadas da estrutura sem chamar atenção.

O cenário descrito pelas autoridades americanas envolve desde a inserção de componentes maliciosos nas placas até o desvio de dados sensíveis, passando pela redução proposital de desempenho de sistemas e pela possibilidade de interrupção completa de equipamentos em uso. Cadenazzi chegou a descrever um cenário hipotético em que um código específico seria ativado para que a placa, em combinação com o chip, decidisse interromper a orientação de uma munição em operação. Embora extremo, o exemplo ilustra o tipo de risco que passou a ser considerado no planejamento de defesa americano.

A fragilidade dessas peças está justamente na sua estrutura. As PCBs são compostas por múltiplas camadas nas quais componentes podem ser inseridos de forma discreta, dificultando a identificação de adulterações. Essa característica técnica transformou um item até então considerado corriqueiro na indústria eletrônica em uma peça estratégica dentro da disputa tecnológica entre as duas maiores potências mundiais.

Do lado da indústria, a demanda por inteligência artificial impulsionou investimentos em fabricação doméstica. A TTM Technologies e a Sanmina, duas das poucas fabricantes relevantes que ainda mantêm operações relevantes nos Estados Unidos, anunciaram a expansão de suas plantas. A TTM, por exemplo, já confirmou novas unidades em Nova York e Wisconsin, embora mantenha sete fábricas na Ásia, incluindo sua maior planta em território chinês.

A pressão sobre o setor também se refletiu nos preços. Um relatório do Goldman Sachs, citado pela Reuters, apontou alta de até 40% nas placas de circuito impresso entre março e abril. A própria TTM informou reajustes que variam entre 5% e 25%, evidenciando o impacto da demanda crescente e das restrições de oferta. Fatores geopolíticos adicionais, como a guerra no Oriente Médio e os impactos envolvendo o Irã, também afetam o fornecimento de matérias-primas essenciais, como cobre e resina, agravando o cenário.

Diante desse quadro, o governo americano busca formas de fortalecer a indústria local. Projetos em tramitação no Congresso propõem créditos tributários de 25% para empresas que utilizarem placas produzidas nos Estados Unidos, além de bilhões de dólares em subsídios direcionados a fabricantes nacionais. O CEO da TTM, Edwin Roks, afirmou que a produção precisa ser nos EUA e, em breve, também na Europa, reforçando a percepção de que a dependência chinesa deixou de ser apenas uma questão comercial e passou a ser tratada como ameaça concreta à segurança.

Para os Estados Unidos, o desafio atual ultrapassa a fabricação de chips mais poderosos. O novo foco da política industrial americana envolve garantir o controle de toda a cadeia produtiva necessária para que os sistemas de inteligência artificial, e também os equipamentos militares, possam funcionar de forma segura e confiável. As placas de circuito impresso, antes invisíveis no debate público, tornaram-se peça central nessa estratégia.