As esperadas ofertas públicas de ações da SpaceX, OpenAI e Anthropic estão redesenhando o mapa global de investimentos em inteligência artificial, com reflexos diretos sobre o mercado asiático. Investidores de todo o mundo ampliam apostas em empresas da Ásia que devem se beneficiar da próxima fase de expansão da infraestrutura de IA, impulsionada pelos recursos bilionários que essas companhias norte-americanas pretendem captar. O movimento sinaliza uma corrida acelerada por capacidade computacional em escala global, com impacto sobre toda a cadeia de suprimentos tecnológicos.
A avaliação do mercado é que os recursos levantados por SpaceX, OpenAI e Anthropic alimentarão uma nova onda de investimentos em infraestrutura tecnológica. Fabricantes de componentes, fornecedores de materiais especializados, sistemas de resfriamento e equipamentos de energia em toda a cadeia de suprimentos asiática devem ser os principais beneficiados. O setor já vinha sendo impulsionado por investimentos massivos de gigantes como Meta e Amazon em infraestrutura computacional.
Após fortes altas nos preços das ações de semicondutores asiáticos, parte dos investidores passou a demonstrar preocupação com os níveis elevados de avaliação dessas empresas. Com isso, cresce a busca por uma nova geração de vencedores ligados à infraestrutura de IA, que ainda não tenham sido totalmente precificados pelo mercado. A atenção está se deslocando dos grandes fabricantes de chips para empresas que atuam em etapas menos visíveis da cadeia produtiva.
Ken Wong, especialista em ações asiáticas da Eastspring Investments Hong Kong, afirma que as ofertas públicas relacionadas à IA podem alimentar ainda mais o boom de investimentos em um momento em que as ações asiáticas de semicondutores parecem esticadas. A gestora está reduzindo sua exposição ao setor de semicondutores dentro de sua estratégia tecnológica para a Ásia e direcionando maior atenção para fabricantes de componentes eletrônicos.
Segundo Fabien Yip, analista de mercado da IG International, as listagens das três empresas poderão resultar em cerca de US$ 70 bilhões adicionais em gastos relacionados à IA. Esse valor se somaria aos mais de US$ 750 bilhões já comprometidos pelas principais empresas de computação em nuvem e infraestrutura digital. Yip ressalta que o impacto sobre a Ásia é claramente visível nos resultados financeiros já divulgados por fabricantes de chips.
Entre as operações mais lucrativas do mercado asiático neste ano figuram empresas como Samsung Electro-Mechanics, fabricante sul-coreana de componentes eletrônicos, e a japonesa Ibiden, fornecedora de materiais empregados na produção de semicondutores. Ambas estão entre os destaques do principal índice amplo de ações asiáticas da MSCI em 2026, refletindo o deslocamento do interesse dos investidores para além dos grandes nomes do setor.
Yip também destaca apostas consideradas menos óbvias, como a fabricante japonesa de sanitários Toto, que fornece materiais cerâmicos utilizados em equipamentos para fabricação de semicondutores. Os fabricantes asiáticos de chips vêm registrando lucros expressivos, beneficiados pelo forte poder de precificação decorrente da escassez de semicondutores. Agora, sinais de restrições de oferta começam a surgir em etapas posteriores da cadeia produtiva, tendência que pode se intensificar com a continuidade dos investimentos.
Sam Konrad, gestor de portfólio da Jupiter Asset Management, vê oportunidades em empresas taiwanesas responsáveis pela montagem de servidores, como Hon Hai e Quanta, além da desenvolvedora de chips MediaTek. Para ele, o ciclo de investimentos em IA vai durar vários anos, e os investidores provavelmente buscarão empresas que sejam beneficiárias diretas, mas que ainda negociem com múltiplos de avaliação mais baixos do que as grandes fabricantes de semicondutores.
Song Zhe, da BNP Paribas Asset Management, acredita que a próxima etapa da valorização deverá ser mais seletiva. Segundo ele, a próxima fase da alta deve ser específica para determinadas ações, e não uma valorização generalizada dos semicondutores. Sua equipe está concentrada em empresas ligadas a encapsulamento avançado de chips, substratos, testes, conectividade óptica, energia, sistemas de resfriamento e infraestrutura de servidores em Taiwan e na China, segmentos nos quais as perspectivas de crescimento dos lucros ainda podem justificar as avaliações de mercado.
Alguns investidores também estão direcionando recursos para aplicações de IA além dos chatbots, incluindo robótica e veículos autônomos. Esse segmento emergente, conhecido como IA física, recebeu impulso dos esforços da NVIDIA para expandir seus negócios nessa área, beneficiando empresas parceiras como a LG. A diversificação para além dos modelos de linguagem indica que o mercado enxerga oportunidades de crescimento em múltiplas frentes dentro do ecossistema de inteligência artificial.
Outro setor que vem atraindo atenção crescente é o de energia, considerado fundamental para sustentar a proliferação de data centers. Fontes nucleares e alternativas de geração ganharam destaque, especialmente em um cenário de alta dos preços do petróleo provocada pelo conflito envolvendo o Irã. Na Coreia do Sul, empresas como HD Hyundai Energy e Daewoo Engineering & Construction estão entre os principais destaques do mercado acionário local em 2026.
Na Índia, os investimentos do Adani Group em data centers abastecidos por energia renovável impulsionam o desempenho de suas subsidiárias do setor energético, representando uma das poucas apostas ligadas à inteligência artificial no país. Jian Shi Cortesi, gestora da GAM Investment Management, considera o fornecimento de energia o gargalo menos explorado pelos investidores, mas alerta que a próxima fase da euforia em torno da IA pode envolver riscos maiores.
Segundo Cortesi, caso a demanda por IA não justifique o volume de investimentos realizados, as empresas poderão reduzir seus gastos de capital, deixando o mercado diante de excesso de infraestrutura e de fortes quedas nas avaliações. É um lembrete de que, mesmo em um cenário de otimismo, os fundamentos econômicos continuam relevantes para sustentar o ciclo de investimentos no setor.
Brian Ooi, gestor da Swiss-Asia Financial Services, avalia que as futuras captações de recursos de SpaceX, OpenAI e Anthropic representam um sinal positivo para a manutenção de investimentos em ações relacionadas à IA. Ele destaca oportunidades ligadas ao setor energético, especialmente em fabricantes de transformadores, células de combustível, cabos, turbinas a gás e outros equipamentos necessários para alimentar a crescente demanda por infraestrutura computacional.
Para Ooi, as três grandes ofertas relacionadas à IA fornecerão mais liquidez para que as empresas continuem investindo em gastos de capital, e elas já possuem planos significativos de expansão. A conclusão do gestor é direta: os fornecedores asiáticos serão beneficiados. O movimento indica que a corrida global por capacidade de inteligência artificial está longe de acabar, e que a Ásia deve continuar ocupando papel central na cadeia de suprimentos que sustenta essa transformação tecnológica.