A SpaceX confirmou sua abertura de capital para o dia 12 de junho com uma avaliação pretendida de US$ 1,75 trilhão na Nasdaq, em movimentação que pode se tornar o maior IPO da história. O documento regulatório S-1 divulgado pela empresa de Elon Musk revelou números financeiros expressivos, prejuízos acumulados, alertas sobre a divisão de inteligência artificial e metas ambiciosas para a colonização de Marte. Para profissionais de tecnologia e investidores, o prospecto oferece uma radiografia inédita de uma das empresas mais influentes do setor aeroespacial e de IA.

Entre os pontos de maior destaque do documento estão os resultados financeiros do trimestre mais recente, os planos para uma colônia humana em Marte, as informações sobre o Grok, o modelo de linguagem integrado à plataforma X, e dados sobre o Cybertruck, picape elétrica da Tesla que também aparece nas operações da companhia.

IPO da SpaceX revela prejuízos, metas em Marte e alertas sobre IA - Imagem complementar

O panorama financeiro apresentado pela SpaceX mostra uma empresa em intensa fase de investimento. A companhia registrou prejuízo líquido de US$ 4,28 bilhões no trimestre mais recente, somando-se a perdas de US$ 4,94 bilhões em 2025. No documento, a empresa afirma possuir histórico de perdas líquidas e admite que pode não alcançar lucratividade no futuro.

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A receita da companhia é fortemente ancorada na Starlink, divisão de internet via satélite. A unidade respondeu por US$ 3,26 bilhões em faturamento no período, o que representa 69% do total de receitas da SpaceX. O negócio espacial, por sua vez, acumulou prejuízo operacional de US$ 619 milhões, enquanto a divisão de inteligência artificial registrou perdas de US$ 2,5 bilhões no mesmo intervalo.

A magnitude dos prejuízos na área de IA chama atenção dentro do prospecto. A empresa destacou que parte relevante de seu valor de mercado depende do desenvolvimento de tecnologias descritas como novas e não testadas. Segundo o documento, serão necessários elevados investimentos ao longo de vários anos antes que produtos e serviços de inteligência artificial da companhia se tornem lucrativos.

O Grok, modelo de linguagem da SpaceX integrado à rede social X, é mencionado diretamente nos alertas do prospecto. A empresa reconheceu que o modelo de IA carrega riscos, incluindo a possibilidade de gerar respostas incorretas, enviesadas ou inadequadas. Essas advertências são semelhantes às feitas por concorrentes como OpenAI e Anthropic, que também enfrentam questionamentos regulatórios sobre o comportamento de seus modelos.

Além das questões financeiras e de IA, o documento traz detalhes sobre os objetivos de longo prazo da empresa em relação a Marte. A SpaceX reafirmou sua meta de estabelecer uma colônia humana no planeta vermelho, um dos pilares da visão de Elon Musk desde a fundação da empresa. O prospecto descreve o programa como um esforço de longo prazo que exigirá investimentos volumosos em infraestrutura e desenvolvimento de tecnologias de transporte espacial reutilizáveis.

O Cybertruck, picape elétrica fabricada pela Tesla, também aparece nas informações do IPO. Elon Musk possui controle sobre 85% dos direitos de voto da SpaceX, e o documento revela que a empresa mantém laços operacionais com outras companhias sob sua liderança. A presença do veículo nos registros está ligada ao uso em operações terrestres da SpaceX.

O valuation pretendido pela SpaceX colocou analistas de mercado em estado de alerta. Dan Coatsworth, chefe de mercados da corretora AJ Bell, observou que uma avaliação de US$ 1,75 trilhão faria a companhia negociar a cerca de 67 vezes suas vendas, múltiplo aproximadamente três vezes superior ao da NVIDIA com base no último ano fiscal. O analista ressaltou que o controle acionário concentrado nas mãos de Elon Musk limita a governança corporativa.

A conjuntura se insere em um cenário mais amplo de aberturas de capital no setor de tecnologia. OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, e Anthropic, criadora do Claude, também anunciaram planos de abrir capital em 2026. As três companhias ainda não registraram lucro anual, embora a Anthropic deva apresentar seu primeiro trimestre lucrativo em breve.

Analistas de mercado têm comparado o momento atual com o período da bolha das pontocom no fim dos anos 1990, quando grandes ofertas públicas de ações sinalizaram um pico do mercado. John Blank, estrategista-chefe de ações da Zacks, afirmou que a enxurrada de IPOs bilionários pode indicar um topo de ciclo, semelhante ao que ocorreu em 1999.

A transparência dos modelos de negócio dessas empresas segue como principal ponto de cautela. William de Gale, gestor de portfólio da BlueBox Asset Management, alertou que a incapacidade de gerar lucro por parte de OpenAI e Anthropic pode afetar toda a cadeia de valor do setor de inteligência artificial. A divulgação de balanços mais detalhados, segundo o gestor, poderá acelerar a correção do atual ciclo de crescimento.

O Deutsche Bank também manifestou preocupação com a qualidade da informação disponível. Adrian Cox, estrategista do banco, destacou que será necessário observar como o mercado público avaliará essas empresas quando seus balanços financeiros estiverem expostos e os modelos de negócio precisarem ser explicados com maior profundidade.

Para investidores e profissionais de tecnologia, o IPO da SpaceX coloca em perspectiva as tensões entre ambição tecnológica e sustentabilidade financeira. A empresa combina uma operação de internet via satélite em expansão, um programa de colonização espacial de décadas e uma divisão de IA ainda deficitária, tudo sob um valuation que desafia os padrões do mercado.