A BBC News Brasil submeteu os três principais assistentes de inteligência artificial do mercado a um teste inédito: perguntar em quem o eleitor deveria votar nas eleições brasileiras de 2026. O resultado expôs comportamentos distintos entre os modelos e reacendeu o debate sobre o papel das ferramentas de IA no processo eleitoral.
O ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, do Google, mantiveram-se neutros e se recusaram a indicar candidatos, cumprindo diretrizes de segurança projetadas para evitar interferência política. Já o Grok, assistente da xAI, empresa de Elon Musk, ofereceu respostas que priorizaram nomes como Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, revelando um comportamento diferente dos concorrentes.
A diferença de postura entre os modelos evidencia um dos desafios centrais da inteligência artificial hoje: como garantir que sistemas que processam vastas quantidades de dados não reproduzam ou amplifiquem vieses políticos presentes nas suas fontes de treinamento. Enquanto OpenAI e Google adotam filtros explícitos para impedir posicionamento político, a xAI parece seguir uma abordagem mais permissiva.
Do ponto de vista técnico, a neutralidade política de modelos de linguagem é obtida por meio de alinhamento, processo no qual os desenvolvedores configuram regras e restrições para que o sistema evite responder a determinados tipos de pergunta. O ChatGPT e o Gemini foram treinados com essas salvaguardas, que os levam a responder que não podem fazer recomendações eleitorais quando questionados sobre preferências de voto. O Grok, por outro lado, não demonstrou o mesmo nível de restrição nas interações registradas pelo teste.
A reportagem da BBC News Brasil realizou as perguntas em condições semelhantes para os três assistentes, garantindo comparabilidade entre os resultados. Os prompts utilizados questionavam diretamente quais candidatos seriam as melhores opções para o eleitor, sem oferecer contexto adicional ou tentar induzir respostas específicas. Mesmo assim, as respostas divergiram de forma significativa.
O comportamento do Grok levanta questões sobre a filosofia de desenvolvimento adotada pela xAI. Elon Musk já declarou publicamente que pretende construir uma inteligência artificial menos restritiva do que as concorrentes, argumentando que modelos excessivamente filtrados limitam a liberdade de expressão. No entanto, essa abordagem pode ter consequências concretas em contextos sensíveis como eleições, onde a manipulação de opinião é um risco real.
Para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o caso ilustra um desafio regulatório crescente. O órgão já discute formas de enquadrar o uso de inteligência artificial em campanhas eleitorais, mas a maior parte das normas em vigor trata da produção de conteúdo por candidatos e partidos, não do comportamento de assistentes virtuais acessados diretamente por eleitores. A popularização dessas ferramentas torna praticamente impossível controlar o que cada usuário pergunta ou recebe como resposta.
O risco de vieses algorítmicos em modelos de linguagem é um tema debatido desde os primeiros grandes sistemas de IA generativa. Esses modelos aprendem a prever a próxima palavra com base em padrões estatísticos extraídos de grandes conjuntos de dados textuais. Se os dados de treinamento contêm desequilíbrios na representação de certos grupos ou ideologias, o modelo tende a refletir esses desequilíbrios nas suas respostas.
No caso específico de eleições brasileiras, o Grok pode ter sido influenciado pelo volume de menções a determinados nomes nas fontes que alimentaram seu treinamento. Candidatos com maior presença digital ou midiática tendem a aparecer com mais frequência em conjuntos de dados online, o que pode levar o modelo a tratá-los como opções mais relevantes ao responder perguntas políticas.
A neutralidade, porém, não é garantida apenas pela ausência de filtros. Mesmo modelos programados para evitar recomendações políticas podem manifestar tendências mais sutis na forma como apresentam informações sobre candidatos, na seleção dos temas que destacam ou na ênfase dada a determinados argumentos. Esse tipo de viés, mais difícil de detectar, é alvo de pesquisa em comunidades acadêmicas de todo o mundo.
A comparação entre os três assistentes mostra que o setor ainda não possui um consenso sobre o nível ideal de restrição em temas políticos. Enquanto OpenAI e Google optam por uma postura conservadora, priorizando a conformidade com regulamentações eleitorais, a xAI adota uma abordagem que pode atrair usuários que buscam respostas mais diretas, mesmo à custa de maior exposição a vieses.
Para os eleitores brasileiros, o episódio serve como lembrete de que assistentes de inteligência artificial não são fontes imparciais de informação. São sistemas que refletem decisões de design, escolhas de dados e políticas corporativas de seus desenvolvedores. Usá-los como referência para decisões de voto pode levar a resultados distorcidos, especialmente quando o modelo não oferece transparência sobre como construiu sua resposta.
O debate sobre o papel da inteligência artificial nas eleições tende a se intensificar nos próximos anos. À medida que modelos de linguagem se tornam mais sofisticados e mais integrados ao cotidiano dos brasileiros, a linha entre assistência útil e influência indevida ficará cada vez mais tênue. Cabe aos desenvolvedores, reguladores e também aos usuários reconhecer os limites dessas ferramentas antes de conferir a elas peso em decisões políticas.