Samsung enfrenta maior ameaça de greve de sua história por disputa sobre lucros da inteligência artificial
Mais de 45 mil trabalhadores da Samsung Electronics na Coreia do Sul ameaçam deflagrar a maior paralisação da história do conglomerado, com duração planejada de 18 dias a partir de 21 de maio de 2026. A informação foi confirmada pela agência de notícias Reuters nesta sexta-feira. O movimento sindical surge em meio a uma intensa disputa interna sobre a distribuição dos lucros gerados pelo boom da inteligência artificial, colocando em xeque a produção de chips de memória essenciais para data centers de IA, smartphones e notebooks.
A origem do conflito está em uma proposta da diretoria da empresa que prevê o pagamento de bônus até seis vezes maiores para os 27 mil funcionários do setor de memórias em comparação com os profissionais das demais áreas. O sindicato que representa os trabalhadores contesta duramente a disparidade e argumenta que os 23 mil empregados alocados nas divisões de fabricação e design de chips não podem ser deixados de lado, especialmente por serem responsáveis por produzir componentes de inteligência artificial destinados a clientes como Nvidia e Tesla.
As consequências financeiras de uma eventual paralisação preocupam executivos e investidores. A Samsung alertou oficialmente que o descumprimento de prazos logísticos com seus parceiros comerciais resultaria em uma perda completa de confiança no mercado. A instituição financeira JPMorgan projetou que a greve pode impactar o lucro operacional da empresa em uma faixa entre 21 trilhões e 31 trilhões de won, o equivalente a aproximadamente 70 bilhões a 104 bilhões de reais, além de provocar perdas diretas de vendas estimadas em cerca de 4,5 trilhões de won, equivalentes a aproximadamente 15,1 bilhões de reais.
O sindicato apresenta uma pauta clara de reivindicações. Entre as exigências, está a abolição definitiva do teto de bônus correspondente a 50% dos salários anuais e a destinação obrigatória de 15% do lucro operacional anual da companhia para um fundo comum distribuído aos trabalhadores. Os representantes sindicais alertam que o abismo nas bonificações desmotiva o corpo técnico do setor de chips e acelera a fuga de profissionais especializados, o que comprometeria a meta do presidente da Samsung, Jay Y. Lee, de liderar esse nicho de mercado até 2030.
Durante as rodadas de negociação, o líder sindical Choi Seung-ho questionou a lógica da disparidade. Segundo transcrições obtidas pela Reuters, ele perguntou retoricamente como seria possível manter a motivação de funcionários da divisão de fabricação ao lado de colegas da divisão de memória que recebem valores significativamente maiores. Em resposta, o executivo e negociador da Samsung, Kim Hyung-ro, defendeu que as bonificações de desempenho devem seguir critérios rigorosos de mérito e rentabilidade real de cada setor, lembrando que a divisão de chips registrou prejuízos na casa dos trilhões de won e sobrevive graças aos recursos gerados pela divisão de memórias.
A insatisfação interna se intensificou após a principal concorrente local, a SK Hynix, abolir seu teto salarial por dez anos, o que resultou em bônus três vezes maiores que os praticados pela Samsung. O movimento provocou uma debandada de engenheiros nos últimos meses. Um pesquisador de chips com 30 anos de casa, identificado apenas como Lee, desabafou à Reuters sobre a frustração profissional. "Não consigo simplesmente sentar no escritório e trabalhar. Não tenho mais orgulho da Samsung", declarou o trabalhador, que revelou ter solicitado emprego na concorrente norte-americana Micron.
Analistas de mercado apontam que manter operações tão distintas sob uma mesma estrutura unificada, na tentativa da Samsung de se tornar a única fornecedora integrada do mundo, gera atritos severos de governança corporativa. O professor Namuh Rhee, da Universidade Yonsei e presidente de um grupo sul-coreano especializado no tema, defende que a empresa deveria capacitar suas fábricas para que se tornem autossuficientes e possam negociar de forma independente.
O impasse trabalhista escalou para a esfera política, atraindo críticas do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, que classificou as exigências de determinados sindicatos como excessivas. Do ponto de vista institucional, o professor de direito da Universidade da Coreia, Park Ji-soon, advertiu que um precedente favorável ao sindicato poderia deixar empresas de diversos setores em uma posição de barganha desfavorável no futuro, já que outras corporações sul-coreanas acompanhariam o caso com atenção.