As maiores empresas de tecnologia do mundo estão executando uma estratégia coordenada para tornar a inteligência artificial uma parte indispensável do cotidiano e dos negócios, criando um cenário em que a adoção da tecnologia se torna praticamente obrigatória para qualquer organização que queira se manter competitiva. Essa dinâmica envolve gigantes como Google, Microsoft, Apple, Meta e Amazon, que vêm incorporando recursos de IA em praticamente todos os seus produtos e serviços. O resultado é um ecossistema no qual a resistência ao uso da tecnologia se converte em desvantagem estratégica, tanto para empresas quanto para governos.

Apesar do esforço corporativo, a receptividade do público americano à inteligência artificial é marcadamente negativa. Pesquisa recente da NBC, uma das maiores redes de televisão dos Estados Unidos, revelou que a maior parte da população considera que a IA fará mais mal do que bem. A avaliação da tecnologia ficou abaixo da do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, que é amplamente repudiado pela sociedade americana, segundo reportagem do Financial Times.

Como as big techs estão tornando a IA inevitável no mercado global - Imagem complementar

O sentimento de desconfiança em relação à inteligência artificial ultrapassa as divisões políticas tradicionais do país. Iniciativas contrárias à expansão da tecnologia ganham apoio tanto entre democratas quanto entre republicanos, com destaque para a oposição à construção de novos data centers. Críticos apontam que barrar essas estruturas poderia frear a aceleração da IA e, ao mesmo tempo, conter a sobrecarga energética e o consumo excessivo de recursos hídricos que a infraestrutura de computação exige.

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Mesmo diante dessa resistência popular e política, especialistas avaliam que as grandes empresas de tecnologia têm conseguido propagar a narrativa de que o avanço da inteligência artificial é irrefreável. Esse resultado é atribuído em grande parte ao bem-sucedido trabalho de lobby realizado pelas gigantes do setor, que contam ainda com o apoio do presidente Donald Trump. A combinação de pressão corporativa e respaldo governamental tem criado condições favoráveis à expansão contínua da tecnologia.

No cenário geopolítico, a tensão entre Estados Unidos e China adiciona complexidade ao debate. Trump deveria se reunir com o presidente chinês, Xi Jinping, na última quinta-feira, 14 de maio, em Pequim. O encontro evidencia uma contradição na política americana: após endurecer o discurso contra empresas e tecnologias chinesas, o governo agora admite discutir cooperação em inteligência artificial com Pequim. Em Washington, cresce a disputa entre defensores da rivalidade tecnológica com a China e setores que enxergam na aproximação uma oportunidade para o Vale do Silício e para fabricantes de chips como a NVIDIA, empresa responsável pelos processadores amplamente utilizados em IA.

O diretor-presidente da NVIDIA, Jensen Huang, integrou a delegação de CEOs que participou da cúpula em Pequim. Segundo a Reuters, Trump contou com Huang para contribuir na tentativa de abrir o mercado chinês para as empresas americanas, o que demonstra o peso estratégico da indústria de semicondutores na diplomacia tecnológica entre as duas maiores economias do planeta.

Do lado da segurança nacional, o Pentágono adotou uma postura aparentemente contraditória ao implementar o modelo de cibersegurança Mythos, desenvolvido pela Anthropic, empresa criadora do Claude. O objetivo declarado pelo Departamento de Defesa é identificar e corrigir vulnerabilidades de software em todo o governo dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, porém, o governo americano acelera uma transição para deixar de utilizar produtos de inteligência artificial da Anthropic nos próximos meses. Mesmo assim, as autoridades reconheceram que o Mythos é relevante para a segurança nacional no momento atual.

Enquanto o Pentágono reavalia sua relação com a Anthropic, concorrentes como OpenAI, xAI e Google correm para ocupar o espaço deixado pela empresa no mercado governamental. Essa movimentação ilustra como a disputa pelo setor público se tornou um dos fronts mais competitivos da indústria de inteligência artificial, com implicações diretas para o financiamento e a escala das operações dessas empresas.

No mercado financeiro, a percepção sobre os impactos econômicos da IA também se mostra significativa. Larry Fink, diretor-presidente da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, participou de evento promovido pela Câmara Americana de Comércio em Nova York com apoio do Valor Econômico. Fink declarou reconhecer desafios de curto prazo decorrentes da inteligência artificial e de fatores geopolíticos, como a guerra no Irã, mas avaliou que o panorama de longo prazo é positivo e oferece oportunidades para investidores. O executivo ainda afirmou que não existe uma bolha de IA, e sim um cenário em que a demanda supera a oferta, configurando uma questão de capacidade de suprimento.

No âmbito corporativo, o processo judicial movido por Elon Musk contra a OpenAI continua revelando os bastidores das negociações e estratégias das empresas envolvidas. Ao depor no tribunal na segunda-feira, 11 de maio, o diretor-presidente da Microsoft, Satya Nadella, classificou como amadora a tentativa frustrada do conselho da OpenAI de demitir Sam Altman do cargo de CEO da empresa de inteligência artificial. Nadella afirmou que nunca recebeu do conselho uma explicação específica para a demissão, que foi revertida poucos dias depois.

A Microsoft mantém participação direta no destino da OpenAI, com controle de cerca de 27% da startup, participação avaliada em pouco mais de 200 bilhões de dólares. Além de garantir posicionamento estratégico no mercado de IA, a Microsoft busca evitar que a criadora do ChatGPT a supere no futuro. Nadella evocou como referência histórica o acordo firmado nos anos 1980 entre a IBM e a então iniciante Microsoft para o desenvolvimento de um sistema operacional para computadores pessoais, parceria que acabou permitindo que a empresa de software superasse a Big Blue. Agora, a Microsoft aplica a lição aprendida para não ser ultrapassada pela própria parceira.

No plano das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, a inteligência artificial também figura como tema central. Autoridades, especialistas, empresários e executivos dos dois países se reuniram em Nova York na última quarta-feira, 13 de maio, na terceira edição do Summit Valor Brazil-USA, evento promovido pelo Valor em parceria com a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O encontro buscou estreitar as relações entre os países em meio a um cenário marcado pela reconfiguração do comércio global, impactos da transição energética e o avanço da inteligência artificial.

O conjunto dessas movimentações demonstra que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar um eixo central da geopolítica, da economia e da segurança global. Seja por meio do lobby corporativo em Washington, das disputas comerciais entre as maiores potências, dos investimentos bilionários em startups de ponta ou da incorporação da tecnologia em produtos de uso cotidiano, as grandes empresas de tecnologia estão construindo as condições para que a presença da IA seja vista como algo natural e inescapável. Para empresas e governos, o desafio passa a ser não decidir se adotam a tecnologia, mas como fazê-lo de forma estratégica e regulada.